Meu amigo Pedro Lage está fazendo um novo livro e está em processo de revisão final dos poemas. Depois de algumas idas e vindas, e muitos meses de espera, finalmente me mandou um arquivo que revisei e devolvi depois de ajustar as formatações que ele me pedia. Gastei a tarde toda de segunda-feira para arrumar os poemas, limpando o fundo das páginas, como se diz, aquelas marcações que só aparecem quando clicamos o P de parágrafo do Word. Mandei um pdf para que visualizasse o texto, e visse onde eu havia feito correções, acreditando (como sempre acredito) que fosse o texto final. Mas... como sempre acontece, Pedro resolveu mexer mais um pouco nos poemas, mudando-os de lugar, reescrevendo alguns versos, alterando de toda forma o arquivo que eu lhe mandara, porém... ele fez todas as alterações no outro arquivo, acreditando que não precisasse senão acrescentar as alterações que eu havia assinalado. Mas o que não aparecia eram as formatações e limpezas que eu havia feito no arquivo que lhe mandei em seguida para que fizesse suas alterações. Ele não tem culpa de não comprender esse processo sempre extenso de revisão de um livro e o trabalho que o editor tem de limpar o original (digital) das impurezas do branco.
O que ele não esperava é que, ao remeter o arquivo em Word para mim às 2h da manhã, eu acordasse às 4h30 e, ao procurar ver que horas eram, descobrisse no meu BlackBerry o email que ele acabara de mandar, com todas as alterações no outro arquivo e não no que eu havia enviado! Perdi imediatamente o sono e me levantei, indo para a sala ligar o computador... Mas o que ele estava pensando? Que meu trabalho pode ser jogado fora? Inconformada, abri o arquivo com todas as mudanças e supostas correções que ele havia acatado da minha revisão e descobri, pasma, que não só eu precisava refazer toda a formatação dos poemas, como recorrigir tudo o que ele havia "saltado", e ainda descobri outros erros que haviam me escapado, porque, claro, não se encontram todos os erros em uma só revisão.
O que aconteceu é típico, acontece toda vez, mas o que foi inédito foi eu ser literalmente "acordada" pelo livro no meio da noite, como um bebê que chora, infeliz, por estar com cólica ou dor de ouvido. E eu, como mãe diligente, pus-me de pé para acudi-lo. E não estava, o coitadinho, todo bagunçado de novo?
Respondi uns três emails ao Pedro, falando o que acontecera e porque ele deveria ter usado o meu arquivo e não o dele. E comecei dizendo: "Quando um autor me diz que não preciso reler um texto, é justamente aí que preciso". O excesso de zelo como editora me leva a esses extremos: acordar de madrugada só porque um livro me chama: "Revise-me!" Pode?
Assim, descobri que como tudo, existe o livro-bebê, que chora enquanto está sendo feito, e ao se ver molhado no berço, berra até acordar sua ama, que, desprendida e despreocupada, vai ao seu encontro, para relê-lo, com todo amor e carinho, porque dali sairá um livro pronto. Mas enquanto ainda não é, ele esperneia pedindo atenção.
Ao explicar a Pedro que eu havia levantado às 4h30 para revisar o livro, ele riu, compreendendo, que, como um filho, o livro pede atenção de quem cuida dele a qualquer momento, não importa a hora, e que isso é mais forte do que nós. Ele achou graça, mas me conhecendo, percebeu que, naquele momento, estávamos fazendo algo muito importante, que pode não parecer nada diante de outras coisas, mas em si mesmo, é tudo.
Rio de Janeiro, 23 de junho de 2011 - 23h12
Crônicas editoriais publicadas num primeiro volume chamado "A vida dos livros" (Ibis Libris, 2010), narrando as experiências como editora de jornal e livros desde 1978.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O dia a dia dos livros
Vivemos à volta de livros que vivem em torno de nós. Olhamos para paredes forradas de volumes, bibliotecas extensas até onde alcançam os olhos. Os livros enchem as casas, como preenchem as livrarias, todos olhando de seu canto da estante, esperando mãos ávidas para buscá-los. Uma vitrine de livros é uma janela viva. Os volumes respiram, como nós. E sorriem lentamente em sua imobilidade.
Mas há os livros rápidos, os que carregamos na bolsa, na pasta, na sacola, para ler na fila do banco, no recreio, no metrô, no ônibus, na sala de espera. Ali os médicos deveriam oferecer livros e não revistas. No cabeleireiro, a conversa seria outra, se as madames lessem os clássicos. E os homens também, na barbearia.
Há os livros que lemos sem contar a ninguém. E aqueles que contamos para todo mundo. O melhor livro é o emprestado, nunca o que emprestamos. Ele nunca volta como foi, e talvez nunca volte. Mas quem o empresta, dá ao amigo um tesouro.
Bibliotecários são guardiões de livros. Entendem deles como um paciente. Auscultam páginas e observam suas marcas. Um livro de biblioteca é diferente de qualquer outro. É um ancião esperando uma visita.
Livros, enquanto existirem para o tato, serão o melhor companheiro de todas as horas. Escolhemos um livro como um amigo com quem passar o tempo. E com ele dialogamos. Perguntamos e ele responde, até o que não foi perguntado.
Procuramos por certos livros a vida inteira, ou pensamos em um para escrever por muitos anos e, finalmente, ele se materializa, como por encanto, à nossa frente, ou descobrimos como fazê-lo.
Convivo com livros há muito tempo, e partilho-os com meus amigos, ora dando-os, ora fazendo-os, ora lendo para eles. Quem lê para alguém, lê para si mesmo em voz alta. Palavras foram feitas para serem ouvidas, não só lidas.
Livros partilham pensamentos, semeiam ideias em desconhecidos, que se tornam íntimos de seu autor. Ler tudo o que um autor escreve é ser mais que fã. Torna-se seu arauto. Em quantas mentes habitam os mesmos livros, cada um compreendido com sua ótica?
Crianças amam os livros, não só por causa dos desenhos, mas porque contêm histórias que não estão em lugar algum - só ali se encontram os personagens daquele sonho. A ficção se transveste de realidade para nos fazer crer naquilo que acredita. Às vezes, uma história inventada é mais vívida do que a vivida.
Os livros vivem seu dia a dia lado a lado com os homens, mulheres e crianças que se dispõem a lê-los, ou a esperar que algum deles o eleja, seja um exemplar, ou um e-book. O livro está prestes a se tornar uma lenda - em 500 anos de história, transformou-se na fala viva dos homens, não só as palavras escritas há muito tempo. É possível ler qualquer coisa assim que tenha sido escrita.
A internet é um grande livro desorganizado, em que cada um dos milhões de internautas escreve nas páginas abertas da web. Uma fração disso se confina entre duas capas. O restante vive a trafegar nas telas de todos os computadores.
Eis o novo livro: um ser eletrônico que se transmite, como pássaro mensageiro, em muitas línguas. Somos testemunhas dessa mudança, o que transformará o homem em leitor cibernauta, escrevendo sua história, minuto a minuto.
Ler e escrever continua na ordem do dia. E aprendemos isso com os livros.
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2011 - 2h34
Mas há os livros rápidos, os que carregamos na bolsa, na pasta, na sacola, para ler na fila do banco, no recreio, no metrô, no ônibus, na sala de espera. Ali os médicos deveriam oferecer livros e não revistas. No cabeleireiro, a conversa seria outra, se as madames lessem os clássicos. E os homens também, na barbearia.
Há os livros que lemos sem contar a ninguém. E aqueles que contamos para todo mundo. O melhor livro é o emprestado, nunca o que emprestamos. Ele nunca volta como foi, e talvez nunca volte. Mas quem o empresta, dá ao amigo um tesouro.
Bibliotecários são guardiões de livros. Entendem deles como um paciente. Auscultam páginas e observam suas marcas. Um livro de biblioteca é diferente de qualquer outro. É um ancião esperando uma visita.
Livros, enquanto existirem para o tato, serão o melhor companheiro de todas as horas. Escolhemos um livro como um amigo com quem passar o tempo. E com ele dialogamos. Perguntamos e ele responde, até o que não foi perguntado.
Procuramos por certos livros a vida inteira, ou pensamos em um para escrever por muitos anos e, finalmente, ele se materializa, como por encanto, à nossa frente, ou descobrimos como fazê-lo.
Convivo com livros há muito tempo, e partilho-os com meus amigos, ora dando-os, ora fazendo-os, ora lendo para eles. Quem lê para alguém, lê para si mesmo em voz alta. Palavras foram feitas para serem ouvidas, não só lidas.
Livros partilham pensamentos, semeiam ideias em desconhecidos, que se tornam íntimos de seu autor. Ler tudo o que um autor escreve é ser mais que fã. Torna-se seu arauto. Em quantas mentes habitam os mesmos livros, cada um compreendido com sua ótica?
Crianças amam os livros, não só por causa dos desenhos, mas porque contêm histórias que não estão em lugar algum - só ali se encontram os personagens daquele sonho. A ficção se transveste de realidade para nos fazer crer naquilo que acredita. Às vezes, uma história inventada é mais vívida do que a vivida.
Os livros vivem seu dia a dia lado a lado com os homens, mulheres e crianças que se dispõem a lê-los, ou a esperar que algum deles o eleja, seja um exemplar, ou um e-book. O livro está prestes a se tornar uma lenda - em 500 anos de história, transformou-se na fala viva dos homens, não só as palavras escritas há muito tempo. É possível ler qualquer coisa assim que tenha sido escrita.
A internet é um grande livro desorganizado, em que cada um dos milhões de internautas escreve nas páginas abertas da web. Uma fração disso se confina entre duas capas. O restante vive a trafegar nas telas de todos os computadores.
Eis o novo livro: um ser eletrônico que se transmite, como pássaro mensageiro, em muitas línguas. Somos testemunhas dessa mudança, o que transformará o homem em leitor cibernauta, escrevendo sua história, minuto a minuto.
Ler e escrever continua na ordem do dia. E aprendemos isso com os livros.
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2011 - 2h34
Calendário maia
terça-feira, 19 de abril de 2011
Amanhã, os novos livros
Há um princípio que rege os livros, e este é a permanência. Por mais que tentemos nos eternizar em nossos gestos e ações, apenas as palavras captarão toda a essência do que somos. Nelas restará dito o que pensamos, em última instância. E não basta dizê-las, temos de escrevê-las, grafá-las do melhor modo, editá-las e, finalmente, publicá-las.
Essa publicação que nos vem à mente e depois às mãos, segue um ritual prévio, que se inicia muito antes de tentar visualizá-lo como coisa concreta. Um livro é toda uma ideia concebida num estalo, a percepção de se poder dizer algo de modo específico e único e, através de nossas palavras, capturar o espírito de tudo o que mais nos importa.
Isso pode ser dito em um poema, em um conto ou romance, ou mesmo numa tese, numa carta, num ensaio. A palavra tem esse dom de perpetuidade, que toda vez ao ser pronunciada, traduzida, ou interpretada, pode suscitar várias reações, de perplexidade ou de compreensão. As ideias viajam nas palavras. E dizê-las faz toda a diferença.
Escrever é esse ofício de labutar com palavras - e a força que elas contêm é maior e melhor do que todo o esforço humano de fazer qualquer outra coisa. As outras coisas são feitas, é claro, mas foi uma palavra, um verso, um texto que as motivou. Colombo atravessou o Oceano Atlântico por causa do livro de Marco Polo. O "Romance da Rosa" foi escrito por causa das cartas entre Abelardo e Heloísa, e sempre um livro puxou outro, por causa de um poema, outro foi escrito, por causa de um romance, outro romancista se debruçou sobre sua própria obra. Machado de Assis foi um tipógrafo quando jovem e começou a ler o que lhe davam. E esse mesmo labor tornou-o escritor de seus próprios pensamentos.
Hoje, não é diferente. Os livros tomam forma, pois para cada pessoa, há um sentido no que escreve, como para o músico, só a música o protege, e para o pintor, as tintas respondem ao seu movimento. O escritor não é diferente de qualquer artista, e para o seu ofício basta escrever em qualquer lugar, num caderno ou laptop, numa folha de papel solta, num bloco encontrado ao acaso.
Para mim, todo livro se apresenta como desafio de projetá-lo para o futuro. Seja a moça que queira publicar os primeiros poemas, ou o cavalheiro, as suas memórias, o livro é o elo entre o aqui e o agora e o amanhã.
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2011 - 23h32 - Dia de Santo Expedito
Essa publicação que nos vem à mente e depois às mãos, segue um ritual prévio, que se inicia muito antes de tentar visualizá-lo como coisa concreta. Um livro é toda uma ideia concebida num estalo, a percepção de se poder dizer algo de modo específico e único e, através de nossas palavras, capturar o espírito de tudo o que mais nos importa.
Isso pode ser dito em um poema, em um conto ou romance, ou mesmo numa tese, numa carta, num ensaio. A palavra tem esse dom de perpetuidade, que toda vez ao ser pronunciada, traduzida, ou interpretada, pode suscitar várias reações, de perplexidade ou de compreensão. As ideias viajam nas palavras. E dizê-las faz toda a diferença.
Escrever é esse ofício de labutar com palavras - e a força que elas contêm é maior e melhor do que todo o esforço humano de fazer qualquer outra coisa. As outras coisas são feitas, é claro, mas foi uma palavra, um verso, um texto que as motivou. Colombo atravessou o Oceano Atlântico por causa do livro de Marco Polo. O "Romance da Rosa" foi escrito por causa das cartas entre Abelardo e Heloísa, e sempre um livro puxou outro, por causa de um poema, outro foi escrito, por causa de um romance, outro romancista se debruçou sobre sua própria obra. Machado de Assis foi um tipógrafo quando jovem e começou a ler o que lhe davam. E esse mesmo labor tornou-o escritor de seus próprios pensamentos.
Hoje, não é diferente. Os livros tomam forma, pois para cada pessoa, há um sentido no que escreve, como para o músico, só a música o protege, e para o pintor, as tintas respondem ao seu movimento. O escritor não é diferente de qualquer artista, e para o seu ofício basta escrever em qualquer lugar, num caderno ou laptop, numa folha de papel solta, num bloco encontrado ao acaso.
Para mim, todo livro se apresenta como desafio de projetá-lo para o futuro. Seja a moça que queira publicar os primeiros poemas, ou o cavalheiro, as suas memórias, o livro é o elo entre o aqui e o agora e o amanhã.
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2011 - 23h32 - Dia de Santo Expedito
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O objeto-livro
O objeto-livro
objeta:
qual parte de mim
que procuras?
É o todo ou o nada
que inauguras?
Que sorte te trará
minha leitura?
No mais das vezes
o que dizes
está dito
está escrito
já foi falado.
Mas o obscuro
olhar sobre a obscura fala
é o que o livro oculta.
Não só o que ilumina
mas o que incendeia
o pensamento
e ensina.
A leitura deste livro
pode ser uma obra.
Operar sobre si mesmo
como entalhe.
Lavrar a todo custo
o que lhe falte.
Apenas o silêncio
impera.
O livro-objeto
é o nervo exposto
da espera.
De nada adianta
desesperar:
lê, sê atento
ao que diz
o que é livre
para ser o que é.
Livre para ser
um livro.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Carta a um jovem escritor à procura de editor
1. mande o texto o mais finalizado possível para o editor, com revisão gramatical, ortográfica feitas por um bom revisor. Se não conhecer nem puder contratar um, pergunte se o editor dispõe de quem faça revisão, no entanto, seu texto deve estar praticamente pronto para edição e não pré-finalizado, portanto, antes de mandar o livro para publicação, frequente oficinas literárias, assista a aulas de redação e de criação de texto, invista na sua carreira de escritor, como qualquer outra. Escrever é um ofício, não uma distração, nem terapia, portanto, tem que aprender a escrever bem. Para isso, leia seus autores favoritos: eles ensinarão como escrever melhor.
2. coloque todo o texto num único arquivo em Word, nada de ficar mandando um poema por arquivo. Isso enlouquece qualquer editor. Coloque os poemas na ordem que quer que sejam publicados, sem quebras de página, sem numeração de folhas, apenas um poema embaixo do outro. Se forem contos, um conto seguido do outro. Se for um romance, um capítulo atrás do outro. Importante: não enfeite, nem edite o texto em Word. Embora o Word seja um editor de texto, ele não serve para editar livros, isso é feito em outro programa de edição. O texto em Word tem que estar o mais enxuto possível, sem fontes diferentes, nem corpo menor ou maior que 12, sem recuo de parágrafo, nem centralização, ou qualquer outra gracinha que o Word oferece. O texto tem que estar limpo, alinhado à esquerda, ou justificado, sem mais de uma linha de separação entre os parágrafos ou poemas (computador não é máquina de escrever, não pode haver espaços manuais entre os textos). Um texto bagunçado ou muito bordado é horrível de revisar: tudo será descartado, portanto não perca tempo com isso.
3. frequente lugares onde haja outros escritores, associações, clubes, academias, grupos, encontros, eventos - descubra quem já escreve perto de você, procure na internet quem já faz isso. Descobrirá que seus sonhos já são de outras pessoas, que também gostam de escrever. Troque ideias, ouça seus conselhos, leia o que eles escrevem. É importante se descobrir inserido num contexto literário. Escrever é um ato solitário, mas o que for escrito será lido pelos outros. Ninguém escreve só para si, pois se escreve, para que publicar? Frequente livrarias e bibliotecas - ali sempre há escritores à solta, em busca de algum livro interessante. E quando menos esperar, terá amigos que compartilham do mesmo ofício, que têm a mesma paixão: escrever.
Rio de Janeiro, 1/10/2010 - 13h24
sábado, 25 de setembro de 2010
Viver de livros
Uma das perguntas mais perturbadoras para a grande maioria dos escritores é se conseguem viver dos livros que escrevem. Os amigos, curiosos por escrutinar a intimidade do autor, perguntam, à socapa: "Você vive disso?" Claro que o constrangimento da pergunta só tem uma resposta: "Não".
Poucos são os que pagam contas com o dinheiro que provém dos livros e ainda guardam um pouco na poupança. A maioria, entre eles grandes escritores, envergonham-se em dizer que não podem contar com o que recebem apenas dos livros vendidos.
Assim, vários autores famosos têm um emprego para garantir seu sustento. Um equívoco? Não. O equívoco é querer que se viva de escrever. Isso é até possível em mercados onde a escrita seja valorizada. Escrever é uma profissão. Mas, entre nós, nem todos podem contar com o que rendem os livros que escrevem.
Best-sellers são sonhos editoriais que só atingem aqueles que alçam ao Olimpo das letras. E só temos olhos para eles. Mas existe vida no sopé do Olimpo, para aqueles que acreditam piamente que aquilo que escrevem vale a pena ser lido.
Hoje temos cada vez mais autores novatos, cada vez mais estreantes, cada vez mais pessoas que se dão ao direito de publicar um livro e quererem ser reconhecidas por isso. Para esses, a estrada é longa. Nem sempre se consegue chegar longe num primeiro livro: há um trabalho longo a ser perseguido antes, durante e depois de lançá-lo.
Publicar é um enfrentamento de egos. Primeiro consigo mesmo, depois com os outros. Escrever é um ato solitário, mas só serve se for lido. Ninguém escreve "só" para si. Um dia esses textos, mesmo escritos no anonimato, se tornarão públicos.
O único caminho é torna-se conhecido: divulgue entre os amigos, entre as pessoas que conhece, publique-se, faça-se publicar, pague para ver, e vá conhecendo as pessoas que poderão valorizar o que escreve. Pode ser que um desses leitores seja a pessoa certa para levá-lo ao Olimpo. Isso pode demorar muito tempo, ou não.
Mas não abra mão de escrever, de publicar, de aprender esse ofício tão raro do escritor, mesmo mal remunerado. Um dia, conseguirá pagar o jantar com o que vendeu em livros. O dinheiro que for para a carteira lhe dará a sensação de que todo o esforço recompensou. É a paga do livro.
Pode ser difícil viver de livros como Paulo Coelho. Porém, até ele começou do zero. Só que ele não desistiu. Ele traçou o próprio caminho. Perseguir esse caminho é a recompensa apenas para os obstinados. Aqueles que não desistem nunca.
O livro vale a pena todo esse esforço. Porque um dia será lido pela pessoa que precisa lê-lo. E isso não tem preço.
Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2010 - 2h02
Depois do lançamento de "Mundo de algodão", de Mariana Reade, contos para adultos e crianças, prefácio de Jorge Mautner e apresentação de Renato Rezende, na DaConde das 16h às 22h.
Poucos são os que pagam contas com o dinheiro que provém dos livros e ainda guardam um pouco na poupança. A maioria, entre eles grandes escritores, envergonham-se em dizer que não podem contar com o que recebem apenas dos livros vendidos.
Assim, vários autores famosos têm um emprego para garantir seu sustento. Um equívoco? Não. O equívoco é querer que se viva de escrever. Isso é até possível em mercados onde a escrita seja valorizada. Escrever é uma profissão. Mas, entre nós, nem todos podem contar com o que rendem os livros que escrevem.
Best-sellers são sonhos editoriais que só atingem aqueles que alçam ao Olimpo das letras. E só temos olhos para eles. Mas existe vida no sopé do Olimpo, para aqueles que acreditam piamente que aquilo que escrevem vale a pena ser lido.
Hoje temos cada vez mais autores novatos, cada vez mais estreantes, cada vez mais pessoas que se dão ao direito de publicar um livro e quererem ser reconhecidas por isso. Para esses, a estrada é longa. Nem sempre se consegue chegar longe num primeiro livro: há um trabalho longo a ser perseguido antes, durante e depois de lançá-lo.
Publicar é um enfrentamento de egos. Primeiro consigo mesmo, depois com os outros. Escrever é um ato solitário, mas só serve se for lido. Ninguém escreve "só" para si. Um dia esses textos, mesmo escritos no anonimato, se tornarão públicos.
O único caminho é torna-se conhecido: divulgue entre os amigos, entre as pessoas que conhece, publique-se, faça-se publicar, pague para ver, e vá conhecendo as pessoas que poderão valorizar o que escreve. Pode ser que um desses leitores seja a pessoa certa para levá-lo ao Olimpo. Isso pode demorar muito tempo, ou não.
Mas não abra mão de escrever, de publicar, de aprender esse ofício tão raro do escritor, mesmo mal remunerado. Um dia, conseguirá pagar o jantar com o que vendeu em livros. O dinheiro que for para a carteira lhe dará a sensação de que todo o esforço recompensou. É a paga do livro.
Pode ser difícil viver de livros como Paulo Coelho. Porém, até ele começou do zero. Só que ele não desistiu. Ele traçou o próprio caminho. Perseguir esse caminho é a recompensa apenas para os obstinados. Aqueles que não desistem nunca.
O livro vale a pena todo esse esforço. Porque um dia será lido pela pessoa que precisa lê-lo. E isso não tem preço.
Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2010 - 2h02
Depois do lançamento de "Mundo de algodão", de Mariana Reade, contos para adultos e crianças, prefácio de Jorge Mautner e apresentação de Renato Rezende, na DaConde das 16h às 22h.
sábado, 31 de julho de 2010
À espera do livro (2)
Enquanto o livro não chega, o que se faz? Entoa-se um hino ou reza-se um terço? Faz-se uma novena ou acende-se uma vela para o anjo da guarda cuidar do livro enquanto ele está sendo feito?
Tudo já foi revisado, revisto, refeito, checado, está tudo em ordem. Mas enquanto ele não chega, nada está completo. E nos fazem esperar - porque há atrasos que desconhecemos, como funcionários que não foram trabalhar ou que se machucaram e ninguém nos diz essas coisas. Ficamos no "escuro", como dizem por aí.
Enquanto o livro não chega, a gente senta e espera. Porque não há nada mais a fazer senão esperar. Diligentemente, aguardamos o dia de colocar as mãos no livro - e tudo o que passou antes se dissolve, como nuvens ao vento.
Já vi tantos livros ficarem prontos, irem e chegarem da gráfica, que os sinto como ondas que o mar leva e traz, mas a ansiedade da espera permanece intacta. E lembro de cada um que chegou. Como se fosse o primeiro. O primeiro de muitos.
São experiências que só compartilhamos com quem já passou por ela, e que não conseguimos antecipar para ninguém, por mais que tentemos explicar. É o inexplicável que acontece a cada vez - a cada livro. Cada um é único em sua totalidade de gênio.
A minha espera pelo primeiro livro de prosa (alvíssaras!) só pode ser medida em megatons, pois eu não conheço outra forma de expressar a minha ansiedade intrínseca, por dentro e por fora - o que será?
Poesia publico a vida inteira. Poesia já é minha companheira. Subiu e desceu o rio comigo. Levou-me para todos os lugares. Trouxe-me todas as pessoas. Abriu portas que eu não abriria sozinha. Foi um privilégio estar com ela e tê-la comigo.
As crônicas que logo saem em livro, e serão lançadas na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no dia 15 de agosto, no estande L 13, são inéditas e terão um caminho e uma abertura que estou para descobrir.
Àqueles que me disseram que valiam a pena ser publicadas, eu agradeço o incentivo e ofereço o livro em retribuição.
Rio de Janeiro, 1 de agosto de 2010 - 2h26 - Dia do Sorriso
Tudo já foi revisado, revisto, refeito, checado, está tudo em ordem. Mas enquanto ele não chega, nada está completo. E nos fazem esperar - porque há atrasos que desconhecemos, como funcionários que não foram trabalhar ou que se machucaram e ninguém nos diz essas coisas. Ficamos no "escuro", como dizem por aí.
Enquanto o livro não chega, a gente senta e espera. Porque não há nada mais a fazer senão esperar. Diligentemente, aguardamos o dia de colocar as mãos no livro - e tudo o que passou antes se dissolve, como nuvens ao vento.
Já vi tantos livros ficarem prontos, irem e chegarem da gráfica, que os sinto como ondas que o mar leva e traz, mas a ansiedade da espera permanece intacta. E lembro de cada um que chegou. Como se fosse o primeiro. O primeiro de muitos.
São experiências que só compartilhamos com quem já passou por ela, e que não conseguimos antecipar para ninguém, por mais que tentemos explicar. É o inexplicável que acontece a cada vez - a cada livro. Cada um é único em sua totalidade de gênio.
A minha espera pelo primeiro livro de prosa (alvíssaras!) só pode ser medida em megatons, pois eu não conheço outra forma de expressar a minha ansiedade intrínseca, por dentro e por fora - o que será?
Poesia publico a vida inteira. Poesia já é minha companheira. Subiu e desceu o rio comigo. Levou-me para todos os lugares. Trouxe-me todas as pessoas. Abriu portas que eu não abriria sozinha. Foi um privilégio estar com ela e tê-la comigo.
As crônicas que logo saem em livro, e serão lançadas na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no dia 15 de agosto, no estande L 13, são inéditas e terão um caminho e uma abertura que estou para descobrir.
Àqueles que me disseram que valiam a pena ser publicadas, eu agradeço o incentivo e ofereço o livro em retribuição.
Rio de Janeiro, 1 de agosto de 2010 - 2h26 - Dia do Sorriso
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