sábado, 25 de novembro de 2017

De água e borboletas


Escrever é um ato de resolução. Ninguém escreve à toa. Tudo o que pensamos vem em forma de sentimento e palavra e, para entender essa ponte, escrevemos.
Marisa Rodrigues faz isso de modo sintomático e obsessivo – sim, há que existir obsessão na escrita – e tudo o que ela diz é maior que ela. Os poemas em prosa ou prosas fluidas nascem aos borbotões para tentar aplacar o que vem primeiro, o sentimento ou a palavra e com isso falar de sua história, revolta, nascimento, feminilidade, vontade, livramento.
Marisa adverte quem lê porque poeta ou não a poesia a transforma. Ela fere de morte os que permeiam seus versos à procura de candura e encontram lacerações. A alma sangra e esse sangramento é palavra.
Urbe et orbi devemos saber que a poesia tem uma função dupla: a de ser escrita e de escrever quem a escreve. E de escrever quem a lê. O poema gruda na retina e de lá não sai. Para sempre a emoção da leitura vai ficar no leitor que não se livrará do poema mesmo que não o lembre. Poesia é transcendental e persecutória. Vive enquanto nos lembrarmos dela.
Os poemas de Marisa Rodrigues neste Água para borboletas catalisam os sentimentos e torna-os claros. Legíveis. Vivos. Como a ranhura dos dentes e a cicatriz da infância. Perceptível e presente.
Thereza Christina Rocque da Motta
Rio de Janeiro, 6 de maio de 2017




Never

Never, never, never quit.
Winston Churchill

Nunca diga desta água não beberei, porque sempre haveremos de bebê-la. Onde há poesia, jorra uma fonte indescritível e bela, de onde vertem poemas inesperados. Os poemas de Delmo Fonseca, neste incrível “Never”, descambam para o lado do imprevisto, o impromptu que se veste e se despe de modo imprevisível, como tudo que se desconhece. “Só acontece o que não se espera”, escreveu André Breton. E “o que não se espera” é a ponta de lança da poesia que tem que nos pegar desprevenidos, como neste apanhado de poemas, em que nunca, nunca, nunca devemos desistir deles. Delmo Fonseca corta rente ao cabedal das suposições em que NEVER se torna SEMPRE.

Thereza Christina Rocque da Motta

(contracapa do livro “never”, de Delmo Fonseca)


O dom da permanência


Os homens terão amado todas as mulheres até que a poesia tenha fim. Ela nasceu para dizer o amor, e do amor ser o mensageiro e o companheiro de todas as horas. A poesia é o alimento do coração que ama. Nada mais pode ser dito por suas palavras, senão que o amor existe e perdura, por toda a eternidade.

O poeta é seu instrumento e por ele os poemas nascem. E os que os leem sentem que a vida se divide em dois momentos: antes e depois da leitura. O poema que não provocar uma cisão entre esses dois instantes não é um bom poema, pois o poema só existe se for definitivo.

A emoção do poema não está nas palavras, mas no sentimento que elas provocam. A lapidação do poema começa nos fatos, os atos corriqueiros do dia a dia, aqueles que fazemos mecanicamente, sem pensar. Mas o poema se constrói, justamente na silenciosa urdidura dos dias e brota, sem avisar, quando está pronto.

O poema corta com suas palavras precisas o que deve ser dito agora e para sempre. Para sempre o poema trará a emoção de quando foi feito. Se isso não acontecer, não é um bom poema. A emoção original continua no poema muito tempo depois de ter sido escrito. E retorna toda vez quando é lido.

Marcia Mendes procura a poesia no seu dia a dia. E ela lhe fala através dos gestos conhecidos de toda uma vida. A vida transborda em seus poemas, excessos de si mesma, que travam uma lenta peregrinação até nossos ouvidos. O que Marcia procura, ela encontra. O que ela sente, ela diz. O que ela pensa, sofre, chora, espera, ama, ela escreve. E através dessa escrita, ela descreve o universo ao qual pertence de modo inalienável.

Sua extrema consciência de si e do outro, sua candura, sua visão humaníssima estão presentes nos poemas deste Permanência, pois é a permanência que os poemas buscam. Ela não sabe o que está fazendo o tempo todo, ninguém sabe, mas ela busca, como todos buscam entender, descobrir, desvendar e revelar naquilo que escrevem.

O poeta nunca sabe quando escreverá seu próximo poema, mas ele sempre tem de ser definitivo, como se fosse o último, como se dividisse o tempo em antes e depois dele, por ser inesquecível. Ninguém é o mesmo depois de ler um poema como esse. Nele está a fórmula da eternidade e da permanência.

Thereza Christina Rocque da Motta
Poeta, editora e tradutora.
Membro da Academia Brasileira de Poesia e do Pen Clube do Brasil





A experiência da pressa, de novo, não dá

Raphael Montes em sua coluna no jornal O Globo deu seus conselhos a novos escritores,  apontando a necessidade de não se ter pressa, nem de querer fazer tudo de afogadilho. Mas discordo quanto à autopublicação ser a última opção. Não há problema algum em o autor bancar seu próprio livro, desde que a editora que o publica se encarregue de ajudar na distribuição. É o que eu faço. E concordo que "cada escritor tem sua história". Todo esforço vale a pena quando se trata de um livro. Tudo que fiz pelos meus livros valeu cada centavo que gastei, cada minuto que perdi. E vale o mesmo para todos os livros que publiquei de outros autores. A experiência da pressa é que não dá. Toda vez que corremos com o processo natural do livro, ocorre um erro, por menor que seja. Cinco minutos a mais não irão atrasar mais o seu livro, mas aquela última olhada poderá fazer toda a diferença.

25/11/2015 - 18h31


sábado, 16 de setembro de 2017

Escrita labial

Conheço Solange Padilha desde 1982, quando participamos do Festival das Mulheres, organizado por Ruth Escobar, em São Paulo. De lá para cá, publicou Saphographia e Dadaandaainda nas décadas de 80/90. Meticulosa, observadora e sensível, Solange elaborou, ao longo de 30 anos, estes novos poemas, reescrevendo, à exaustão, o que parecia não ter fim. Ao completar mais uma década de sua interminável meninice, Solange publica estes poemas em sua última forma, o que consumiu sete meses para virem a lume. Perfeccionista in extremis, nada a contentava, até desenhar sua própria capa – a difícil missão de dar rosto a um livro. Todo livro possui a essência de seu autor, e esta pode demorar a se revelar, até que um sonho a impulsione. Acompanhar esse processo foi tortuoso, pois um livro não caminha em linha reta. Se é da natureza das coisas serem circulares e elípticas, este Escrita labial cumpriu todas as rotações, translações e elipses possíveis, até se materializar. Um livro é um ser, não um objeto. E, por mais estranho que seja, é um ser dotado de alma e sentimento. O sentimento dos poemas é esse, de instigação, de perplexidade, de caminho reencontrado, pois, para caminhar, foram necessárias algumas correções de trajetória, feitas, uma a uma, como numa viagem intergaláctica. Solange atingiu seu objetivo: Escrita labial se completou, descrevendo um traço, uma senda sinuosa e estreita, por onde passam poucos viajantes.

Thereza Christina Rocque da Motta,
poeta e editora,
Membro da Academia Brasileira de Poesia
e do PEN Clube do Brasil

orelha para o livro Escrita labial, de Solange Padilha, 

publicado em dezembro de 2014


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Fazer livros é uma aventura

Fazer livros é uma aventura. Como correr atrás do coelho branco da Alice. Estamos sempre atrasados em relação a um livro. Sempre correndo atrás do que ele precisa. A docilidade do papel para se criarem os livros. São séculos de aprendizado para entender o ofício. O que uma vida inteira não dá cabo. Ontem fui a um sebo aqui perto de casa comprar um livro importante para mim: "As cidades invisíveis" de Italo Calvino. Ninguém faz ideia do que foi entrar naquele sebo apinhado de livros em busca desse exemplar, "resgatando-o" do passado. O livro tem esse dom de nos transportar. Uma máquina do tempo.

3/04/2012 



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Poesia em tempos de crise

Livros de poesia são pièces de résistance. Quando tudo o mais parece fenecer, eles sobrevivem dando novo fôlego a quem pensa que está no fim. Quando não há mais nada a ser feito, os poemas são escritos, na solidão, na clausura, na prisão, no exílio. As cantigas de amor e de amigo surgiram na distância. A poesia supre quando se pensa não mais haver saída, porque é escrevendo que aprendemos a esperar. E os que leem aprendem também. Como o poema de William Ernest Henley, que Nelson Mandela leu durante 30 anos em sua cela, acreditando que um dia iria sair de lá, invicto, com a cabeça erguida, como diz o poema. Muitos poemas alimentam nossos sonhos e constroem a nossa fé. Seja escrevendo ou lendo-a, a poesia tem sido o cimento para abrirmos as estradas para onde queremos ir. 

Minha tradução para o poema de William Ernest Henley (1849-1903):

INVICTUS
William Ernest Henley
(1875)

Diante da noite escura que me cobre,
Como uma cova aberta de um lado a outro,
Agradeço aos deuses
Por minha alma invencível.

Nas garras vis das circunstâncias,
Não titubeei, nem chorei.
Sob os golpes do infortúnio,
Minha cabeça sangra ainda erguida.

Além deste vale de iras e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos de ameaças,
Sempre me encontrarão destemido.

Não importa quão estreitas sejam as passagens,
Nem quantas punições sofrerei:
Eu sou o senhor do meu destino:
Eu sou o capitão da minha alma.

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta


William Ernest Henley escreveu o poema em 1875, mas somente o publicou em 1892, numa coletânea chamada "Echoes".

3/08/2016 - 14h51