segunda-feira, 3 de abril de 2017

Fazer livros é uma aventura

Fazer livros ainda é uma aventura. Como correr atrás do coelho branco da Alice. Estamos sempre atrasados em relação a um livro. Sempre correndo atrás do que ele precisa. A docilidade do papel para se criarem os livros. São séculos de aprendizado para entender o ofício. O que uma vida inteira não dá cabo. Ontem fui a um sebo aqui perto de casa comprar um livro importante para mim: "As cidades invisíveis" de Italo Calvino. Ninguém faz ideia do que foi entrar naquele sebo apinhado de livros em busca desse exemplar, "resgatando-o" do passado. O livro tem esse dom de nos transportar. Uma máquina do tempo.

3/04/2012 



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Poesia em tempos de crise

Livros de poesia são pièces de résistance. Quando tudo o mais parece fenecer, eles sobrevivem dando novo fôlego a quem pensa que está no fim. Quando não há mais nada a ser feito, os poemas são escritos, na solidão, na clausura, na prisão, no exílio. As cantigas de amor e de amigo surgiram na distância. A poesia supre quando se pensa não mais haver saída, porque é escrevendo que aprendemos a esperar. E os que leem aprendem também. Como o poema de William Ernest Henley, que Nelson Mandela leu durante 30 anos em sua cela, acreditando que um dia iria sair de lá, invicto, com a cabeça erguida, como diz o poema. Muitos poemas alimentam nossos sonhos e constroem a nossa fé. Seja escrevendo ou lendo-a, a poesia tem sido o cimento para abrirmos as estradas para onde queremos ir. 

Minha tradução para o poema de William Ernest Henley (1849-1903):

INVICTUS
William Ernest Henley
(1875)

Diante da noite escura que me cobre,
Como uma cova aberta de um lado a outro,
Agradeço aos deuses
Por minha alma invencível.

Nas garras vis das circunstâncias,
Não titubeei, nem chorei.
Sob os golpes do infortúnio,
Minha cabeça sangra ainda erguida.

Além deste vale de iras e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos de ameaças,
Sempre me encontrarão destemido.

Não importa quão estreitas sejam as passagens,
Nem quantas punições sofrerei:
Eu sou o senhor do meu destino:
Eu sou o capitão da minha alma.

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta


William Ernest Henley escreveu o poema em 1875, mas somente o publicou em 1892, numa coletânea chamada "Echoes".

3/08/2016 - 14h51


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Quem ama sem dizer adeus?

Quem ama sem dizer adeus? Somente aquele que insiste. Somente o que se pega órfão de um amor maior, e sai em busca de sua completude. Não aceitar o não como resposta, e dizer para si mesmo que é capaz de amar além da medida, desmesurado amante de todas as coisas lindas – se amar nos completa e sacia, o adeus não faz parte de sua filosofia.
Cristina Biscaia é poeta por insistência. Ela não abdicou de escrever seus poemas e depois mostrá-los, como sinal de permanência. Ela insistiu por longos anos, para hoje vir, de cabeça erguida, e dizer: “Eis o que escrevi”. Tornou-se amante incondicional de sua poesia e sua poesia dela. Seu modo próprio de dizer, sem ofender ninguém. O poeta, por excelência, vive a par das coisas sem perturbá-las. Conta piada sobre si mesmo e cai na risada. Depois chora, porque “o amor dói”, e é a cura para o próprio amor.
Cristina é o corpo de sua poesia. Por ela, passam os pensamentos que se coisificam, se materializam, como histórias antigas e revividas, memória, passado, presente, todos misturados. É o cotidiano, a peregrina de si mesma, o tempo, as contradições, alquimia, amor à arte.
A poesia se torna palpável na leitura. Vemos o verbo apresentar-se inteiro, como pensamento íntegro, palatável. Sonhar, muitas vezes é complexo. E para encontrar o verso, é preciso lapidar, até que reste só o poema de tudo o que foi vivido.
Na turbulência de suas idas e vindas, há um lugar aonde o viajante chega. E esse lugar é a poesia.
Thereza Christina Rocque da Motta

Orelha para o livro Peregrina, de Cristina Biscaia (Ibis Libris, 2011)


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Nascer é difícil

Nascer é difícil. Deixar que o livro tome forma é difícil. Abandonar-se à força de seus poemas e permitir que eles se moldem por si sós é difícil. Acreditar que o destino do livro esteja traçado e que apenas damos à luz o que já “está pronto” é praticamente impossível. Saber que, não importa o que façamos, não acrescentamos nem retiramos nada do que é, mas o construímos incessantemente até que esteja terminado.
Assim foi desde o primeiro poema que Adriana me entregou para ler, “Aprendendo a morrer”, onde ela começa com seu bordão à la Maiakovski, “Morrer não deve ser difícil”, iniciando ali mesmo o processo de edição, que culminou na publicação deste único (sic) livro de sua vida. Imponderável, pois na deificação de si mesmo não encontramos todas as respostas.
Não somos oniscientes, no entanto, o livro se sabe antes que o saibamos. Incompletude. Lágrimas e palavras justapostas, aprendendo a cada dia. Esquecer os pecados. Perdoar-se. Perdoar. O mais difícil.
Depois morrer fica fácil. Pois difícil é aceitar o desafio de se expor, lágrimas e palavras trazidas às páginas do livro, para se traduzir ou pedir uma tradução: “Leiam-me e digam por si mesmos, se o mais difícil não é viver?”

Thereza Christina Rocque da Motta, 
posfácio para Pianos invisíveis
de Adriana Monteiro de Barros (Ibis Libris, 2008)


Dentro de mim, só mar revolto

Dentro de mim, só mar revolto. Flávia Apocalypse simplifica a vida que a fascina: café com leite, vitamina C, mesa de trabalho, cafezinho, almoço, Coca-Cola, trânsito, sala de jantar, revistas, travesseiro de fronha branca. Tudo corrimão pra que eu possa me segurar.
A mulher monta o varal de roupas todo dia, o vento faz com que se movimentem. Suor e lágrimas de incerteza, fome, amargura, febre, medo. A vida se põe diante dela como pano de fundo para o dia a dia. Os cabelos desalinhados, passar o domingo de camisola. Domingo em que sou eu mesma.
A poeta tece com brandura o ser encurvado, para enxergar o que lhe dói. A poeta ausculta em si mesma as noites mais escuras, a vida que não passa de um jogo de sombras, onde ela se perde e se acha e se espanta.
O coração bate, o corpo pulsa e a poeta se curva diante de seu próprio ser. Pão com manteiga, jogo de dominó. Quem sabe? A sombra empurra e o caminho se abre até o mar.
Flávia tem a voz de Adélia Prado que fala do dia e da noite, da sofreguidão das almas que se aquietam para uma manhã mais longa, uma noite que não acaba. Amo muito e é um amor sem sombras, sem porquês. Amor pelo amor.
Essa voz que Flávia empresta da poeta mineira, faz emergir a própria voz de uma mulher que ama sem objeto, a manhã pura e intacta. Ouço cada canto da minha casa com cuidado, cuidado de criança que está aprendendo a amar. E como criança, Flávia Apocalypse experimenta a poesia iniciática do choro do perdão. O indecifrável do armário que ela não abre para ninguém. Tudo que se oculta sob as roupas, a lama, a angústia, o pudor.
Agora é hora de arrumar a casa, a mala, o cabelo, as gavetas, renovar a esperança, porque não dá para fingir que não sabemos. Hora de respirar fundo. A poesia salta a cerca e invade a praia de quem lê seus versos: “Depois que isso passar (...), você vem me buscar?”
Thereza Christina Rocque da Motta, 5/05/2011

orelha do livro Janelas de Flávia Apocalypse (Outras Letras, 2011)


sexta-feira, 22 de julho de 2016

O começo de uma história se assemelha a um nascimento

O começo de uma história se assemelha a um nascimento: compreender o mundo é função do ser humano, esta espécie em extinção. Buscar nos animais nossa contraparte divina é a forma mais simples de se conhecer. De todos os mamíferos, o maior deles é a baleia – este ser aquático como os botos-tucuxis que emergem para atrair os homens de volta às águas. A natureza humana é celestial e aquática. Tanto os céus quanto os mares nos fascinam e nem sabemos por quê. A baleia é a voz da Mãe Terra. A Terra que sobrenada em dois terços de água, é o macrocosmo de nosso corpo aquoso. Os dias são líquidos e escorremos sobre eles como placas tectônicas sobre o magma. Compreender, compreender tudo, é o destino dos homens. Destino, missão, fado. Aos mares lançaram-se os portugueses em busca de horizontes. Sua terra tão franzina fez com que quisessem conquistar o mundo. É o mesmo que fazem os homens em sua ânsia pelo mar. Um amor deve alargaralargar horizontes, alargar vidas, abrir portas, enseadas, baías, descer rios, encostas, enfrentar abismos, escalar montanhas, quantas descobertas, meu Deus! São todas essas descobertas que fazem parte do mundo de Bárbara, que, até pelo nome, já nasceu desbravadora. Por que a escrita, por que os sentimentos, por que as bombas, por que as guerras, por que as causas humanas, por que tudo isso que faz parte da vida? São muitas as línguas e os alfabetos existentes no mundo, mas se todos são provenientes da mesma raiz, a língua comum existente é o amor. O amor é a maior descoberta. Para isso vivem os homens – para amar e ser amados – e descobrir o preço desse amor, nem que seja à custa de muito sofrimento. A redenção de todas as dores, pelo renascimento nas águas, de onde vieram, certamente.


Thereza Christina Rocque da Motta, apresentação ao livro “Bárbara e a baleia”, de Flavia Muniz Cirilo, Multifoco, 2010 


sexta-feira, 8 de julho de 2016

A única coisa que não sai de moda são livros


Você pode fazer o que quiser, ser cabeleireiro, skatista, comissário de bordo, professor de matemática, geriatra, plantonista, e pode querer escrever um livro. Livro é a única coisa que cabe em qualquer profissão, basta criar tempo para escrevê-lo, porque toma tempo. E nunca sai de moda. A mocinha faz de um tudo, se dedica à profissão, vai a todos os lugares, um dia, escreve um livro. Conta lá o que quiser. A senhora, o senhor, até o ascensorista tem uma história de vida para contar. Até o adolescente. Em qualquer atividade cabe um livro. Só não escreve quem não quer. Agora, saber escrever e escrever bem é outra coisa. Mas não é disso que estamos falando. Escrever e publicar nunca sai de moda desde... muito antes que imaginamos, senão como saberíamos sobre povos antigos? Escrever, registrar sua história, desenhar faz parte da humanidade, mesmo sem saber de onde viemos. Não tem importância, porque escrever nunca sai de moda. Nem ler. Nem contar histórias. 


8/07/2016 - 19h10