segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O objeto-livro

O objeto-livro
objeta:
qual parte de mim
que procuras?
É o todo ou o nada
que inauguras?
Que sorte te trará
minha leitura?

No mais das vezes
o que dizes
está dito
está escrito
já foi falado.
Mas o obscuro
olhar sobre a obscura fala
é o que o livro oculta.
Não só o que ilumina
mas o que incendeia
o pensamento
e ensina.

A leitura deste livro
pode ser uma obra.
Operar sobre si mesmo
como entalhe.
Lavrar a todo custo
o que lhe falte.
Apenas o silêncio
impera.

O livro-objeto
é o nervo exposto
da espera.
De nada adianta
desesperar:
lê, sê atento
ao que diz
o que é livre
para ser o que é.

Livre para ser
um livro.

17h59 - 25/10/2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Carta a um jovem escritor à procura de um editor

1. mande o texto o mais finalizado possível para o editor, com revisão gramatical, ortográfica feitas por um bom revisor. Se não conhecer nem puder contratar um, pergunte se o editor dispõe de quem faça revisão, no entanto, seu texto deve estar praticamente pronto para edição e não pré-finalizado, portanto, antes de mandar o livro para publicação, frequente oficinas literárias, assista a aulas de redação e de criação de texto, invista na sua carreira de escritor, como qualquer outra. Escrever é um ofício, não uma distração, nem terapia, portanto, tem que aprender a escrever bem. Para isso, leia seus autores favoritos: eles ensinarão como escrever melhor.

2. coloque todo o texto num único arquivo em Word, nada de ficar mandando um poema por arquivo. Isso enlouquece qualquer editor. Coloque os poemas na ordem que quer que sejam publicados, sem quebras de página, sem numeração de folhas, apenas um poema embaixo do outro. Se forem contos, um conto seguido do outro. Se for um romance, um capítulo atrás do outro. Importante: não enfeite, nem edite o texto em Word. Embora o Word seja um editor de texto, ele não serve para editar livros, isso é feito em outro programa de edição. O texto em Word tem que estar o mais enxuto possível, sem fontes diferentes, nem corpo menor ou maior que 12, sem recuo de parágrafo, nem centralização, ou qualquer outra gracinha que o Word oferece. O texto tem que estar limpo, alinhado à esquerda, ou justificado, sem mais de uma linha de separação entre os parágrafos ou poemas (computador não é máquina de escrever, não pode haver espaços manuais entre os textos). Um texto bagunçado ou muito bordado é horrível de revisar: tudo será descartado, portanto não perca tempo com isso.

3. frequente lugares onde haja outros escritores, associações, clubes, academias, grupos, encontros, eventos - descubra quem já escreve perto de você, procure na internet quem já faz isso. Descobrirá que seus sonhos já são de outras pessoas, que também gostam de escrever. Troque ideias, ouça seus conselhos, leia o que eles escrevem. É importante se descobrir inserido num contexto literário. Escrever é um ato solitário, mas o que for escrito será lido pelos outros. Ninguém escreve só para si, pois se escreve, para que publicar? Frequente livrarias e bibliotecas - ali sempre há escritores à solta, em busca de algum livro interessante. E quando menos esperar, terá amigos que compartilham do mesmo ofício, que têm a mesma paixão: escrever.

Rio de Janeiro, 1/10/2010 - 13h24

sábado, 25 de setembro de 2010

Viver de livros

Uma das perguntas mais perturbadoras para a grande maioria dos escritores é se conseguem viver dos livros que escrevem. Os amigos, curiosos por escrutinar a intimidade do autor, perguntam, à socapa: "Você vive disso?" Claro que o constrangimento da pergunta só tem uma resposta: "Não".

Poucos são os que pagam contas com o dinheiro que provém dos livros e ainda guardam um pouco na poupança. A maioria, entre eles grandes escritores, envergonham-se em dizer que não podem contar com o que recebem apenas dos livros vendidos.

Assim, vários autores famosos têm um emprego para garantir seu sustento. Um equívoco? Não. O equívoco é querer que se viva de escrever. Isso é até possível em mercados onde a escrita seja valorizada. Escrever é uma profissão. Mas, entre nós, nem todos podem contar com o que rendem os livros que escrevem.

Best-sellers são sonhos editoriais que só atingem aqueles que alçam ao Olimpo das letras. E só temos olhos para eles. Mas existe vida no sopé do Olimpo, para aqueles que acreditam piamente que aquilo que escrevem vale a pena ser lido.

Hoje temos cada vez mais autores novatos, cada vez mais estreantes, cada vez mais pessoas que se dão ao direito de publicar um livro e quererem ser reconhecidas por isso. Para esses, a estrada é longa. Nem sempre se consegue chegar longe num primeiro livro: há um trabalho longo a ser perseguido antes, durante e depois de lançá-lo.

Publicar é um enfrentamento de egos. Primeiro consigo mesmo, depois com os outros. Escrever é um ato solitário, mas só serve se for lido. Ninguém escreve "só" para si. Um dia esses textos, mesmo escritos no anonimato, se tornarão públicos.

O único caminho é torna-se conhecido: divulgue entre os amigos, entre as pessoas que conhece, publique-se, faça-se publicar, pague para ver, e vá conhecendo as pessoas que poderão valorizar o que escreve. Pode ser que um desses leitores seja a pessoa certa para levá-lo ao Olimpo. Isso pode demorar muito tempo, ou não.

Mas não abra mão de escrever, de publicar, de aprender esse ofício tão raro do escritor, mesmo mal remunerado. Um dia, conseguirá pagar o jantar com o que vendeu em livros. O dinheiro que for para a carteira lhe dará a sensação de que todo o esforço recompensou. É a paga do livro.

Pode ser difícil viver de livros como Paulo Coelho. Porém, até ele começou do zero. Só que ele não desistiu. Ele traçou o próprio caminho. Perseguir esse caminho é a recompensa apenas para os obstinados. Aqueles que não desistem nunca.

O livro vale a pena todo esse esforço. Porque um dia será lido pela pessoa que precisa lê-lo. E isso não tem preço.

Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2010 - 2h02
Depois do lançamento de "Mundo de algodão", de Mariana Reade, contos para adultos e crianças, prefácio de Jorge Mautner e apresentação de Renato Rezende, na DaConde das 16h às 22h.

sábado, 31 de julho de 2010

À espera do livro

Enquanto o livro não chega, o que se faz? Entoa-se um hino ou reza-se um terço? Faz-se uma novena ou acende-se uma vela para o anjo da guarda cuidar do livro enquanto ele está sendo feito?

Tudo já foi revisado, revisto, refeito, checado, está tudo em ordem. Mas enquanto ele não chega, nada está completo. E nos fazem esperar - porque há atrasos que desconhecemos, como funcionários que não foram trabalhar ou que se machucaram e ninguém nos diz essas coisas. Ficamos no "escuro", como dizem por aí.

Enquanto o livro não chega, a gente senta e espera. Porque não há nada mais a fazer senão esperar. Diligentemente, aguardamos o dia de colocar as mãos no livro - e tudo o que passou antes se dissolve, como nuvens ao vento.

Já vi tantos livros ficarem prontos, irem e chegarem da gráfica, que os sinto como ondas que o mar leva e traz, mas a ansiedade da espera permanece intacta. E lembro de cada um que chegou. Como se fosse o primeiro. O primeiro de muitos.

São experiências que só compartilhamos com quem já passou por ela, e que não conseguimos antecipar para ninguém, por mais que tentemos explicar. É o inexplicável que acontece a cada vez - a cada livro. Cada um é único em sua totalidade de gênio.

A minha espera pelo primeiro livro de prosa (alvíssaras!) só pode ser medida em megatons, pois eu não conheço outra forma de expressar a minha ansiedade intrínseca, por dentro e por fora - o que será?

Poesia publico a vida inteira. Poesia já é minha companheira. Subiu e desceu o rio comigo. Levou-me para todos os lugares. Trouxe-me todas as pessoas. Abriu portas que eu não abriria sozinha. Foi um privilégio estar com ela e tê-la comigo.

As crônicas que logo saem em livro, e serão lançadas na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no dia 15 de agosto, no estande L 13, são inéditas e terão um caminho e uma abertura que estou para descobrir.

Àqueles que me disseram que valiam a pena ser publicadas, eu agradeço o incentivo e ofereço o livro em retribuição.

Rio de Janeiro, 1 de agosto de 2010 - 2h26 - Dia do Sorriso

domingo, 4 de julho de 2010

Um livro puxa outro

De cada amigo a quem pergunto que livro foi importante em sua vida, recebo uma lista diferente. Há livros que são unanimidades, mas há outros dos quais nunca ouvi falar.

Que bom que meus amigos têm tempo para ler. Eu sei que leitura se cria e se copia. Minha mãe quando era pequena, caçula de seis irmãos, ao ver todo mundo lendo, carregava um livro debaixo do braço só para dizer que também estava lendo. "Já li até aqui, ó!", dizia, mesmo que não tivesse lido.

Ler dava status. E ainda dá. Quando eu tinha oito anos, a televisão de válvula quebrou. E como não havia como consertá-la por ser importada, minha mãe aproveitou para aboli-la. A TV tinha programas que ela considerava inaceitáveis, e não queria ver meu irmão menor repetindo as gracinhas do Lilico. Assim, televisão banida, os livros entraram na pauta do dia. "Leiam o que quiserem, está tudo aí".

Eu segui o conselho, e me pus a folhear os livros que estavam na estante. Mamãe tinha o hábito de sublinhar as passagens mais interessantes, então, eu, para encurtar a história, lia só o que estava sublinhado, os highlights, o que relmente valia a pena. Mas isso foi um primeiro passo para ler o que estava entre as partes sublinhadas. Foi assim que li Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe" e "Demian", muito populares na época, entre outros.

Papai, da mesma forma, era um aficionado por livros. Um dia, perguntei a ele se havia lido todos os livros que tinha em casa, e ele me respondeu muito simplesmente que não. Que nem sempre se lê um livro todo, às vezes, a informação pode estar na orelha, na introdução, ou em uma parte que se abre ao acaso.

Outra história que me ensinou sobre livros foi o conto "Felicidade clandestina" de Clarice Lispector. Ali ela fala do livro como algo transcendental. O conto, além de muito sintético, expressa de forma vívida a experiência de se segurar um livro. "Um amante", ela o chama no final. Sim, livros podem se tornar amantes. Os livros que temos avidez para ler, em que cada página é uma descoberta.

Livros de poesia eu leio inteiros. Se o livro for bom, lerei todos os poemas de uma vez. De uma talagada só. Se não for, irei parar de ler onde deixou de ser bom. Assim li vários poetas de uma vez: Hilda Hilst, Afonso Henriques Neto, Olga Savary, Astrid Cabral. Esses eu leio sem titubear.

O hábito faz a leitura se tornar mais fácil. Já falei sobre isso, mas é sempre bom lembrar. Um livro puxa outro. Por causa de um livro, eu descubro outro que não conheço. Há citações em um que vou encontrar em outro. Citações são importantíssimas.

Roberto Piva, poeta de vanguarda dos anos 60, que depois de anos empunhando uma poesia de primeira e que veio a falecer recentemente, escrevia um texto a partir de várias leituras. Para lê-lo era preciso ser iniciado, para saber do que ele estava falando. Como para ler James Joyce, é preciso conhecer ao que ele se refere.

Literatura é referência. Um livro nos traz outros, sobre o mesmo assunto, sobre coisas parecidas, ou outras muito diversas. Ler um autor nos familiariza com suas leituras. Uma lista de livros que ele leu. Isso Luiz Ruffato faz em seu romance "Eles eram muitos cavalos", um capítulo para nos dizer os títulos dos livros de sua estante. Importantíssimo.

Se alguém não gosta de ler, leia para ele. Se alguém não tem tempo, diga para ele ler só o que gosta, e que o livro esteja à mão, na mesa de cabeceira, na mesinha da sala, no banheiro, que bastam alguma palavras por dia para se instalar o hábito. Principalmente, falem sobre o que leram. Nem sempre todos leram as mesmas coisas.

Levem seus livros para passear. Em algum lugar terá tempo de ler. Coloque na bolsa, no bolso, na mochila. Sinta o peso do que está carregando. Como minha mãe carregando um livro pela casa, só para dizer para todo mundo que estava lendo.

Hábitos se ensinam, se transmitem. Livros se dão de presente, se emprestam. E se devolvem. Livros são companheiros, parceiros, amigos de toda hora. Livros nos fazem companhia o tempo todo. Uma sala sem livros, é uma sala sem alma. Enquanto os livros nos olham da estante, eles nos emprestam seu calor, sua existência. E da convivência com os livros, tornamo-nos melhores.

Rio de Janeiro, 5 de julho de 2010 - 1h24

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Histórias de livros

Cada livro tem uma história. Uma história única que só conhecemos se convivermos com o livro de perto. Essa convivência nasce no dia a dia com o autor, com o processo de edição, durante o fazimento do livro, trazendo-o a lume.
Há livros que precisam ser refeitos, cuja primeira tentativa de imprimi-los não dá certo e, ao refazê-los, ele nasce como se fosse pela primeira vez. Há histórias tristes, há histórias felizes, há um mistério insondável de por que as coisas acontecem assim. Há traduções que se arrastam, há revisões que não terminam, há romances que não se concluem, ou textos que nunca são escritos.

Há também gráficas que não acertam um livro, ou têm que fazê-lo pelo menos duas vezes. Isso é natural? Há autores que precisam dar meia-volta e reimprimi-lo. São as histórias de livros que enchem a minha vida.

Em um deles, um mosquito ficou preso na hora da gravação da chapa de um caderno. Ficou a manchinha das asas como uma sombra acima do texto. Em 30 anos, nunca vi isso. Tivemos de reimprimir aquele caderno 2.000 mil vezes.

Ainda houve outro livro impresso no papel errado: ou seja, tivemos de reimprimir tudo de novo no papel certo. E a impressão errada teve de ser destruída. Ainda me ligaram para perguntar se eu queria aproveitá-la. "Não, pelo amor de Deus, me livre disso".

Há livros que são risíveis, outros uns transtornos. Mas sempre a lembrança de fazê-lo é uma saga. Muitas dessas histórias nunca chegam aos ouvidos do autor. Se ele as ouve, fica desesperado, e é nessas horas que é preciso ter toda a calma do mundo.

Há livros impressos ou cortados errados que voltam para a gráfica sem discussão. E ainda tentamos salvar alguns para o lançamento. Por isso nunca me falem em lançar livros antes que aportem em segurança, sãos e salvos, em perfeito estado.

E os livros condenados ao abandono, impressos e sem ter para onde ir? Quando o autor pensa num livro, ele pensa em um, não em mil guardados debaixo da cama. Por isso que a impressão sob demanda ganhou força. E os ebooks estão invadindo o mercado. Não há mais lugar para estocar livros.

Conviver com livros, guardá-los, lê-los, compartilhá-los, emprestá-los, doá-los para bibliotecas, saber que será lido por alguém que não tem livros em casa. Certa vez, ouvi uma pergunta: "Por que você tem tantos livros?" Interessante. Eu perguntei de volta: "Por que você não os tem?"

Histórias de livros são histórias de pessoas que escrevem e leem livros. Há tantos romances que giram em torno de um livro. Em "O nome da rosa", Umberto Eco criou um suspense por causa de um livro que não podia ser lido. "A menina que roubava livros" tornou-se bestseller. Outra história em torno de livros.

Tenho por hábito ler antes de dormir, levar livros em viagem, procurar livros interessantes numa livraria ou num sebo, comentar livros que li, traduzi-los, revisá-los e escrevê-los.
A convivência com livros faz com que tenhamos sempre algo à mão, sempre uma boa companhia, como alguém que escolhemos para estar conosco. Livros aproximam pessoas, torna-nos íntimos de nossos autores favoritos, faz com que os citemos de cor, de tal forma que apreciamos o que escreveram. Podemos não ter lido toda a obra de um autor, mas saber que ainda há coisas dele para ler é como antecipar um encontro com um amigo que desejamos muito reencontrar.

E ainda há os novos autores, que querem entrar para este mundo de escritores, editores e leitores, pessoas tão seletivas quanto um bebedor de chá, um sommelier ou um estilista.
Os livros encerram infinitas histórias, e nem todas ainda tivemos tempo de contar.
Rio de Janeiro, 11 de junho de 2010 - 21h42

Livros para a vida inteira

Escrevemos para a vida inteira. Tudo o que buscamos dizer e escrevemos, permanece inscrito como o mapa da mina, o esconderijo de um tesouro, a caverna de Ali Babá. É uma relíquia até para nós mesmos, quando nos esquecemos.

"Fui eu que escrevi isto?" Há memórias que se vão se não forem registradas. Às vezes, alguém nos lembra algo que dissemos e nós mesmos não sabemos mais.

Quando escrevemos, o fazemos para nos lembrar. Ou sermos lembrados. A palavra escrita é a única que guarda toda a energia e significado de suas letras. Se forem misturadas, continuarão a querer dizer a mesma coisa.

Não importa a língua, as letras contêm o código do conhecimento humano, uma imagem simbolizada, ou o símbolo da imagem que foi ali registrada um dia. Através desse símbolo, temos um som e um significado, que por mais que se tenha perdido, permanece implícito na palavra.

A letra R, por exemplo, foi traçada a partir da imagem de um rosto e o L, a partir da silhueta de um homem caminhando com pressa, com a cabeça arremessada para frente, em movimento. Toda palavra que se inicia com R ou L terão o significado dessas letras embutido em seu sentido. A soma das letras traz o significado da palavra em essência, mesmo que tenha ganhado outra acepção com o tempo.

Essa energia contida nas palavras e o conteúdo do texto como um todo, a materialização do pensamento humano gera uma onda que toma todo o livro, o autor e leitor num uníssono que se reproduz ad eternum.

Escrever tem essa genialidade. Trazer para quem lê toda a carga de energia do que é dito. Toda ideia tem o poder de mil sóis. A explosão de seu signficado jamais se extingue, reverbera como a luz se propaga pelo espaço.

Buscamos a permanência e essa é a nossa. As ideias só continuam se forem repetidas, relidas, revistas, revisitadas. Uma paisagem descrita em um livro é uma paisagem rememorada mil vezes.

Ainda ecoa em mim a leitura que fiz aos 15 anos de "Olhai os lírios do campo", de Érico Veríssimo. Ou a descrição do sertão em "Fogo morto" e "Menino de engenho", de José Lins do Rego. Um livro acompanha uma pessoa por toda a vida depois de lido.

Os contos da Condessa de Ségur, as reinações de Narizinho e as caçadas de Pedrinho, as fábulas de La Fontaine, as histórias de Andersen e dos Irmãos Grimm, desde "A Princesa e a Ervilha" e "O Patinho Feio" à "Chapeuzinho Vermelho" e "Cinderella" se repetem continuamente criando o leitmotiv de toda a minha vida.

Ao repetir as palavras que pronunciamos, mesmo no silêncio de nossos pensamentos, entendemos que nascemos para falar de nossa compreensão aos que virão. Assim são escritos os poemas, os contos, os romances, os livros de autoajuda - para ajudar a compreender.

Tudo o que procuramos pode estar num livro. Encontre-o. Senão, ele o encontrará.

Rio de Janeiro, 11 de junho de 2010 - 20h18

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida dos livros

Ted Roosevelt dizia ser parte de tudo o que leu e, naturalmente, tudo o que havia lido fazia parte dele. “Leia muito, mas não livros demais”, já aconselhava Benjamin Franklin, que devia enxergar nos livros algum excesso de ideias. E Abraham Lincoln, mais pragmático, disse: “O que quero saber está nos livros; meu melhor amigo é aquele que me dá um livro que ainda não li”.

A memória, o primeiro celeiro do pensamento humano, é a grande arma para vencer o tempo. Ao passar nosso pensamento para as páginas de um livro, fazemos algo mais do que preservar a história e os fatos: mantemos vivos quem os escreveu. Assim, todo livro tem uma vida própria, por quem o escreveu e para quem o lê. O tempo só volta a se mover ao abrirmos as páginas desse livro. Ali estão preservados todos os sentidos de quando foram escritos: até o vento sibila nas folhas, e as ondas repetem seu som; tudo se move dentro dos livros que lemos.

A vida dos livros é a que tomamos emprestado quando mergulhamos naquilo que lemos. Seja ficção ou não-ficção, um livro técnico ou autoajuda, um livro cumpre uma função única: trazer o antigo, revelar o novo, familiarizar-nos com aquilo que não conhecemos. Fazemos imensas descobertas só de folhear um livro. Os olhos procuram algo inédito e logo encontram.

Para quem gosta de ouvir histórias, a palavra é sempre bem-vinda. Ler para alguém é um santo remédio.

“Bons amigos, bons livros e uma consciência limpa: eis a vida ideal”. Mark Twain equilibrava os melhores elementos para uma existência pacífica. Já Voltaire, mais perspicaz, avisava: “Apenas os amigos roubam os seus livros”. O que é um livro subtraído ou nunca devolvido?

A vida se encerra num livro como a gema e a clara dentro do ovo. Sem abri-lo, nunca poderemos desfrutá-lo. “Há uma grande diferença entre um homem ansioso que quer ler um livro e outro cansado, que quer um livro para ler”, lembrava G. K. Chesterton. Compartilhamos com os livros os nossos melhores momentos, a nossa maior intimidade. Ler escondido faz parte dessa vida secreta dos livros. Livros se escondem na estante, ficam invisíveis entre os outros, só para serem reencontrados.

“Não conheço nenhum problema que uma hora de leitura não consiga aplacar”, vaticinava o Barão de Montesquieu. Desde que surgiram, os livros acompanham os homens em suas lides e suas batalhas. O Marquês de Maricá não deixava por menos: “A paixão da leitura é a mais inocente, a mais aprazível e a menos dispendiosa”. Economizar tostões está na ordem do dia para quem prefere ler. Um livro serve de diversão por muito tempo. Nada de prazeres fugazes. Devemos procurar valores permanentes.

“Podemos viajar por longas distâncias apenas lendo livros”, escreveu Andrew Lang, poeta, romancista e crítico literário escocês, falecido em 1912. Quem nunca foi à China que já não se imaginou caminhando pela Grande Muralha? Aquilo que não vemos sente-se aguçado pelos ouvidos a imaginá-lo. E ao descrevê-lo, damos a possibilidade de visão a quem não vê. É possível experimentar mesmo sendo apenas um bom ouvinte.

“A vida só é possível reinventada”. Cecília Meireles reinventava a cada poema, a cada crônica que escreveu. E não há outro modo de reinventar a vida, senão através de um livro.

O livro que escolhemos é o guia, o farol, a pedra fundamental de todo conhecimento, de todo saber, de todo aprendizado; é por ele que passam os grandes homens; por ele onde começam as crianças; por ele que se educa e se aprende; por ele encontramos o caminho das conquistas.

Seja qual for seu know-how, o livro possui o condão de devolver o que foi perdido, de encontrar o que se buscava, de dizer o que nunca foi dito, de lembrar o que se esqueceu. Busque um livro como se busca um amigo. Mesmo que este lhe diga, como Shams disse a Rûmî, arremessando todos os livros ele que carregava ao chão: “Está na hora de viver tudo o que já leu”.

Ler nos ensina a saber o que é mais importante. Tudo o que lemos permanece conosco, mesmo que não lembremos. Mas a mente guarda a relíquia da leitura como uma visão inesquecível.

Rio de Janeiro, 19 de maio de 2010 – 22h52

terça-feira, 11 de maio de 2010

O livro altruísta

Por mais que nos esforcemos, não conseguimos mostrar aos nossos autores quanto é difícil fazer livros. Difícil, porque nos deparamos com uma miríade de questões de todo tipo.

Primeiro, lidar com a personalidade do autor: que figuras! Quando ele não sabe o que quer, sabe demais e começa a dar ordens. Ou então, põe as manguinhas de fora quando o livro fica pronto. É aí que descobrimos toda a educação que a mãe não lhe deu.

Segundo, lidar com as intempéries do livro: as sucessivas revisões, as extenuantes alterações, as mudanças necessárias e a visão microscópica para não deixar passar erros (em geral cometidos pelo próprio autor e que teremos de "caçar" a olho nu).

Terceiro, com a pressa inerente ao ser humano: todo mundo parece querer tudo para ontem, quando não se fazem livros em três dias. Nem sete, nem 30. Livros levam muito mais tempo do que se espera. E temos de esperar que fiquem prontos. Isso eu digo e repito e toda vez que tentam colocar o pé no acelerador, o livro dá errado.

Quarto: por mais que se faça, nunca parecerá o suficiente. Assim o tempo que gastei revisando o livro não será reconhecido, porque qualquer coisa que saia errado parecerá que eu não fiz o que eu deveria fazer, quando fiz tudo o que pude para que desse certo.

Só há uma saída: quando o autor aceita, humildemente, que o orientemos e ele nos acompanhe passo a passo, nem duvidar. Todo o meu esforço é hercúleo, é sobre-humano, é maior do que eu. Mas tudo isso parece valer menos quando aquilo que fiz não é reconhecido por erros alheios à minha vontade.

Nem tudo dá certo. Nem tudo pode ser uma maravilha, nem todos os livros são um sucesso desde o seu lançamento. Para isso o autor precisa estar consciente de seu despreparo, de sua fragilidade, de sua ignorância ao lançar um livro - ele nunca fez isso antes. E mesmo que tenha feito, sempre parecerá a primeira vez.

É preciso fazer isso de modo inocente, como criança. Ter uma candura e um coração maior que tudo, e saber que ninguém irá querer prejudicá-lo. Muito pelo contrário. Ninguém trabalha para que as coisas deem errado.

Quinto e último: livros só valem a pena quando são amados. Se o fizermos com fito de lucro ou soberba, seremos o primeiro alvo de seu descaso. Livro não foi feito para ostentação. Foi feito para diversão e compartilhamento. É o objeto mais altruísta do homem: ele permanece no lugar do autor, para que seu ensinamento, sua mensagem perdure. Então, não pode ser feito por vaidade. O livro não é vaidoso. Ele é simples, por mais belo que pareça.

E nessa simplicidade, o que for menos, vale mais.

Rio de Janeiro, 11 de maio de 2010 - 19h32

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os 10 Mandamentos do Revisor

(A ordem dos fatores não altera o produto)

1- Pela coerência dos tempos de verbo, velarás
2- Palavras e expressões repetidas, evitarás
3- Pronomes possessivos, economizarás
4- Adjetivos em excesso, caçarás
5- O emprego da crase, finalmente aprenderás
6- Um bom dicionário, sempre consultarás
7- Sinais de pontuação, bem empregarás
8- As novas regras ortográficas, enfim conhecerás
9- Leituras infindáveis, constantemente farás
10- Uma paciência de Jó, armazenarás


Contribuição de uma contista aplicada, Consuelo Marinho-Rouquette que lançará seu segundo livro de contos "Comida & Tristeza" dia 31 de maio na Travessa do Leblon a partir das 19h

Livros de uma vida inteira

As plantas nascem pequenas, não importa o tamanho que tenham quando forem grandes. As crianças são igualmente pequenas, tão mínimas quando uma noz ou uma semente, que crescem para assumir o seu tamanho. E como a água rega as plantas, os livros regam os homens, assim como as palavras que lhes dizemos desde jovens. E sem pretender afogá-los, damo-lhes a justa medida de palavras, a conta-gotas, para que absorvam aos poucos o que saberão pelo resto da vida.

A cada dia, um novo livro assoma à nossa porta, para nos dizer aquilo que queremos saber, e numa ciranda de ideias armazenadas, bem acondicionadas em páginas que se seguem, uma à outra, perfeitamente encaixadas. Não pretendemos saber tudo, nem de longe, nem um dia. Mas nos dá uma imensa alegria pensar que um saberemos mais, ao encontrar um livro de surpresa, ou aquele que tanto buscamos.

O melhor livro é o que nos completa, o que nos empresta as palavras certas, nos diz o que estávamos esperando ouvir (ou ler). E a partir da novidade dita, poderemos compartilhá-la, duplicá-la, transmiti-la, copiá-la, repensá-la, tudo numa fração de segundos. A vida passa mais devagar quando pensamos. Dá tempo de refletir sobre tudo. Detemo-nos diante de um poema como se tocássemos a pedra filosofal. Aquela que tem o condão de transformar tudo em ouro.

São de ouro as nossas ideias, os nossos pensamentos, tudo o que aprendemos a fazer, tudo o que podemos ensinar, compartir, dividir, doar. A vida se presta aos préstimos. Àquilo que emprestamos de nós, em cada palavra que dizemos.

Aprender novas palavras: eis o desafio do homem. Aprender a dizê-las, aprender a usá-las, aprender a ensinar a dizê-las, com seu significado e sentido, com seu peso e matéria. Palavras para tudo o que somos e pretendemos saber.

E o único repositório das palavras (além das cartas bem escritas e dos diários e jornais abandonados) são os livros que colecionamos a vida inteira, esses portais de sabedoria que carregamos por toda a parte, e abrimos como quem procura um tesouro e sabe que vai encontrá-lo.

Rio de Janeiro, 27 de abril de 2010 - 02h02

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Assim como as pessoas, os livros nascem

"Assim como as pessoas, os livros nascem.
Assim como as pessoas, eles são descobertos.
E tantas vezes enquanto houver pessoas procurando descobri-los.
Os livros, como as pessoas, envelhecem.
Têm manchas de idade, dobras, marcas de expressão.
Assim como as pessoas, os livros são abandonados.
E, também, quando reencontrados, são capazes de serem amados novamente.
Os livros, como as pessoas, podem até ser interpretados de maneiras diferentes, mesmo contando exatamente a mesma coisa.
Talvez seja por isso que os livros se ocupem sempre em contar histórias da vida das pessoas.
Por serem tão parecidas com as deles.
Na verdade, os livros e as pessoas diferem apenas em um ponto: o final.
Porque, ao contrário das pessoas, um livro nunca morre."

(adaptado de um texto do marcador do sebo Livros, livros e livros, recém-reinaugurado na Rua Rainha Elizabeth, 122, loja E, Copacabana, Posto 6, tel.: (21) 2523-7454, livros.livros@uol.com.br)

Rio de Janeiro, 1o. de abril de 2010 - 21h24

sábado, 27 de março de 2010

Ao alcance da mão

Livraria da Travessa
Foto: Paulo Batelli



O livro deve estar ao alcance da mão, quando não está em nossa memória.

O convívio com o livro é um hábito que se renova a cada página,

como se ler fosse muito fácil e assim se torne à medida que lemos.

Ler aos poucos cria fôlego para se ler mais,

até não saber quanto se consegue devorar com os olhos.

Tudo é minuciosamente escrutinado,

à procura de sinais, baixos-relevos,

inscrições apenas palpáveis, adivinhadas entrelinhas.

Ler algo que nos soa correto, descortina um novo horizonte.

Olhamos detidamente para o que descobrimos.

É inaugurado um novo princípio

e passamos à leitura seguinte mais sábios e mais ávidos.

Livros podem ser olhados ao acaso,

como se folheássemos algo que não nos pertence,

mas subitamente pode passar a fazer parte de nós.

E, uma vez que desvendemos esse segredo, jamais o perdemos,

porém, só o compartilhamos com quem também já o desvendou.

O hábito da leitura tem de se instalar aos poucos.

Nada aos saltos perdura.

Para fazer sempre é preciso constância, passos lentos para se ir mais longe.

Ler apenas o que nos agrada, acostumar o olho à página,

até que se aprenda a suportar qualquer texto e saber recusar um só ao vê-lo de relance.

Não devemos nos forçar à leitura.

A leitura não prazerosa se torna automática. Nada fica.

Impossível reter qualquer palavra.

Ler durante o tempo que se tolera, imerso no texto,

como um peixe – nadar até ficar exausto.

Tentar ler o que nunca se pensou gostar.

Inaugurar novos caminhos.

Cada leitura conduz a um destino não planejado.

E ao alcançá-lo, acreditar que não havia melhor lugar para se estar.

O livro é feito não apenas para os olhos, mas para o tato.

Tocá-lo faz parte da leitura.

Saber que o que emana dele recende a jasmim ou sândalo.

Deixamo-nos seduzir pelos sentidos.

Um livro é sempre um objeto de toque.

O olho percebe o que as mãos já sabem.

E, ao saborear as palavras, sente-se repleto.



Rio de Janeiro, 21 de março de 2010 – 15h27

domingo, 14 de março de 2010

José Mindlin (1914-2010)


José Mindlin mostrando um exemplar do livro
"Grande Sertão: Veredas" em plena revisão.
Segundo Mindlin, as anotações foram feitas
pelo próprio Guimarães Rosa.

Foto: © Copyright Penna Prearo
Todos os direitos reservados.
Foto feita em maio de 2002

sábado, 13 de março de 2010

O espírito dos livros

José Mindlin, imortal e bibliófilo, falecido há duas semanas, deixou-nos um legado perene: perpetuar os livros, pois, para ele, "os livros não desaparecerão jamais". Já outro bibliófilo, semiólogo e escritor italiano, Umberto Eco, os 30.000 livros de sua biblioteca são "os que ainda irá ler, senão, por que os guardaria?"

Piadas à parte, a verdade é que os livros cumprem um destino insólito: de preservar tudo o que o homem imaginou. Sem eles, nada saberíamos sobre egípcios e sumérios, babilônios e gregos, isso para citar os mais antigos, pois desde a invenção da imprensa, popularizaram-se as publicações de tal forma que praticamente todos podem realizar o sonho de publicar um livro.

Hoje, então, nem se fala. Gutenberg fez pelo livro o mesmo que Graham Bell pela comunicação virtual: acelerou os processos de tal forma que não imaginamos mais viver sem eles. As gráficas hoje tentam acompanhar a produção sob demanda. Além do papel reciclado, temos o papel de garrafa pet, o papel de plástico, que não dobra nem amassa. Quando pensamos nos primeiros livros impressos, temos a sensação de estar diante de um milagre.

Outro aspecto me chama a atenção: a sina da perseguição. Livros já foram proibidos, queimados, banidos, indexados, destruídos e, claro, lidos às escondidas. Há um temor e um assombro em relação a eles, seja pelo que trazem ou pelo que nos revelam. Ler um livro ilumina.

Por tudo isso, todos que um dia colaboraram em relação aos livros, seja criando bibliotecas, contrabandeando-os, guardando-os em lugar seguro, salvando-os de um incêndio ou de uma enchente, são dignos de um prêmio. O exemplo de Midlin deve multiplicar-se, o de Eco, proliferar-se, todos deveríamos ter 30.000 livros ainda por ler.

Meus pais sempre foram bibliófilos. Sempre tinham um livro sendo lido. Antes de morrer, papai estava lendo "As Novelas Exemplares", de Miguel de Cervantes. Mindlin também dizia que ao encontrarmos um livro, nunca devemos negligenciá-lo, ele pode não estar mais lá quando voltarmos para buscá-lo. É o encontro de uma vida.

Um dos depoimentos mais fantásticos que ouvi foi o de um contista, Mariel Reis, ao dizer que crescera numa casa sem luz, e que se refugiava na biblioteca do bairro durante o dia para poder ler. Ali podia encontrar todos os autores que queria: aquele era o seu paraíso. Ele escreve como poucos autores contemporâneos que conheço. É de tirar o fôlego. A literatura salvou-o.

Ainda menina, aos dez anos, li uma crônica de Cecília Meireles e foi a primeira vez que vi o que estava escrito: chamava-se "A arte de ser feliz" e ela descrevia a pomba que pousava num globo de louça azul que, por vezes, ficava da mesma cor do céu e assim a pomba parecia estar pousada no ar... Estava fazendo uma leitura silenciosa durante a aula no quarto ano primário do Chapeuzinho Vermelho, levantei a cabeça... e vi a pomba no ar!

O que um livro contém só faz sentido para quem o lê. Esse é o espírito do livro, que vive em nós depois que o lemos, que continua falando conosco muito tempo depois de tê-lo perdido em alguma mudança ou de uma separação. A biblioteca semovente que nos acompanha são os livros que guardamos, os que damos de presente, os que perdemos, os que esquecemos e só reencontramos nos sebos.

Ontem, na TV, um homem anunciava que alguém havia jogado na lata de lixo em Nova York uma primeira edição de "Alice no País das Maravilhas", encadernado em couro vermelho, com bordas douradas, que valia quinze mil dólares! Quem o encontrou, guardou-o num cofre. Esta edição só não vale mais do que a feita pelo próprio Lewis Carroll para presentear a Alice Liddell.

Além do sentido para quem o lê, há para quem ouve falar do livro - por quanto tempo procuramos um livro que queremos ler? Às vezes, uma vida inteira. E ao encontrá-lo, novamente volto a Mindlin, é como se encontrássemos um velho amigo que perdemos de vista há muito tempo.

Esta missão, a de guardar, a de escrever, a de publicar, a de vender livros, é a das mais sagradas, pois livros são sagrados pelo que contêm. Uma grande livraria brasileira começou com uma senhora que emprestava os livros que havia trazido da Europa ao fugir da guerra. Outra começou com um rapaz que veio trabalhar em uma que fecharia uma semana depois e para não deixá-la cerrar as portas, "tocou o negócio". Há muitas que já fecharam depois de viverem seu período áureo. Mas sempre voltam, em outro lugar.

O espírito dos livros sempre pairou sobre as águas. E criou, à sua imagem e semelhança, os livros que lemos.

Rio de Janeiro, 13 de março de 2010 - 18h20

quarta-feira, 10 de março de 2010

Livro é um ser vivo

Estava eu posta em sossego sábado à noite, quando me liga Pedro Lago, desesperado:
- Já mandou o arquivo do livro para a gráfica?
Eu respondi:
- Sim, claro.
- Ih, encontrei outro erro.
- Onde?
- Na citação de Balzac. Tem um R a mais numa palavra e nós não vimos...
- Esse é um erro fácil de passar, depois de tantos que já pegamos...

O livro passou por três provas de gráfica, fora as duas antes de mandarmos os arquivos para impressão. Mas não adianta: quantos mais erros houver no original, mais tempo levaremos para pegar todos, isto é, se quisermos pegar todos. Pois o olho não funciona como instrumento de precisão. O olho é vago. Ele vê o que quer e o que ele não quer ver, descarta. Oblitera. Sublima.
Assim, toda revisão tem de ser feita de modo regular, periódico, sistemático e, se possível, por quem nunca tenha visto o texto antes.

- Como você encontrou o erro?
- Pedi a meu amigo para ler a citação em voz alta e aí ele viu que estava errado.
Eu disse:
- Pois é, você acabou de experienciar o livro dizendo para você onde ainda havia um erro. De onde tirou a ideia de pedir para ler justamente a citação?
- Sei lá.
- É assim mesmo. O livro só consegue nos fazer enxergar os erros que passaram ao acaso, não tem outro jeito, pois nossa leitura é sempre falha. A não ser que tenhamos todo o tempo do mundo. Mas queremos ver o livro pronto, por isso não temos paciência para revisar.
- Entendi...

Pedro acabara de viver na pele como isso acontece. Pode ser que algum outro errinho ainda tenha escapado. Nas sucessivas leituras que fizemos, eu e ele, sempre encontrávamos algo a mais que não tínhamos visto antes. E este (negligenciado por justamente estar logo na frente, e isso é comum) não poderia passar. Desse modo, de forma sutil, o livro indicou onde estava o erro, pedindo: "Leia-me."

Liguei imediatamente para Elô, a dona da gráfica, em Blumenau, no celular, e perguntei se o miolo já havia sido impresso. Por sorte, ela me disse que não. Então, pedi que esperasse até eu mandar a página, na segunda-feira, trocando a citação onde o autor encontrara um erro na última hora. O livro foi salvo pelo gongo. Se tivesse sido impresso, teríamos de mandar reimprimir aquele caderno. Isso pode acontecer, mas não foi necessário desta vez. Sorte nossa e sorte do livro (como se ele não soubesse...)

Hoje topei com uma citação de Anaïs Nin: "Lemos aquilo que precisamos. Há quase uma força obscura que nos guia para determinado livro".

Isso eu experimento toda vez que entro numa livraria. O livro me "chama", seja lá onde ele estiver na prateleira. Realmente, é uma força estranha que entra em ação, me chamando para o livro onde ele está, embaixo de um, ao lado de outro. Meu olhar busca o livro onde ele estiver escondido, e só pára no momento em que o encontra.

É uma mágica que se instala na atração irresistível de um livro chamando seu leitor: "Leia-me", da mesma forma que ele pede para ser corrigido antes de ficar pronto. É um apelo, um grito, uma dor, como se dissesse: "Corrija-me, por favor".

O antes e o depois de um livro ficar pronto cria uma energia elástica, uma sintonia plástica entre aquele que faz o livro e quem o compra para ler. Existe uma tensão entre aquilo que foi escrito e quem precisa lê-lo. E todas as forças entram em ação para que o objeto atinja seu destino e encontre seu leitor.

"Lemos o que precisamos". Nem mais, nem menos. Se não sabe o que ler, espere: o livro o encontrará.

Rio de Janeiro, 10 de março de 2010 - 22h10

De Betina Kopp:

AMEI!!!!

De Flávio Machado:

Realmente interessante essa colocação ou constatação do livro como um ser vivo, muito bom o artigo.

De Renata Pallottini:

Lido, pensado, é mesmo!
Um abraço, Renata

De Mano Melo:

Adoro suas crônicas sobre edição. Você enxerga como uma cientista.

Beijos,
Mano

De Antonio Torres:

Tô repassando, Thereza Christina.

Bjs,

AT

De Andrea Milanez:

Curioso, você ter me mandado este texto pois ontem fiquei na internet lendo anais nin e separei um texto que não tenho certeza se é poesia ou prosa poética para levar pro Ponte de Versos, acho que tivemos a mesma ideia...Outra curiosidade, a pouco mandei um texto falando de como compro livros e é exatamente como voce descreveu. Jung chama isso de sincronicidade, pois coincidências para ele não existem. Estamos em sintonia.
bjs
Dede

De Claudia Abreu Campo:

Boa, Thereza!

De Álvaro Alves de Faria:

querida thereza:
dá para fazer um livro com essas histórias.
pense nisso.
beijo,
álvaro

De Pedro Lago:

Nossa, que repercussão! Fiquei honrado, sério mesmo.
Não preciso dizer que esse livro tem que ser feito, será muito interessante.