terça-feira, 21 de agosto de 2012

Lições do livro (I)

Hoje vivi uma situação inédita e pavorosa. Imprimi um livro com erro de diagramação. Em 30 anos e 12 de editora, isso nunca tinha me acontecido. Toda vez que corria o texto, eu conseguia pegar no pulo, mas desta vez não deu. Eu confiei (e sempre acontece algo errado quando faço isso) que estivesse certo como o anterior, porque, pela lógica, não tinha por que aquela linha ter saltado na quarta página e fazer correr o livro inteiro.

São os males das ferramentas de que dispomos e o excesso de coisas que fazemos. Na urgência de imprimir o livro, sem nos perguntar se está certo (temos sempre de checar mesmo que tenhamos absoluta certeza), damos o passo seguinte e somos pegos desprevinidos: se tivéssemos olhado mais uma vez, teríamos evitado o desastre.

Mas, não: há o erro na cor da capa, o erro na contracapa, e ainda (disse o autor) algumas retificações para se fazer (ainda). Ou seja, o livro não estava pronto. E esse puxão de orelha só serviu para dizer: "Preste atenção!"

Eu sempre aprendo com Papai Livro. Ele está sempre certo e nós sempre errados. Nós acertamos para que ele fique correto, mas como ele não pode se fazer sozinho, depende de nós para que o façamos. Embora ele CANSE de avisar quando está errado e nós que não ouvimos.

Era como se o mundo viesse abaixo. E o autor, que me ligara naquela hora, me informava, de viva-voz, algo que eu nunca tinha vivido. Rapidamente fiz as contas mentais para entender como aquilo havia acontecido, e puxando o único exemplar de que dispunha à mão, constatei, aterrada, o que nunca tinha visto acontecer.

Sempre digo que por mais que já tenhamos vivido todas as situações, sempre há algo reservado que não nos aconteceu ainda. E esta foi a minha vez de viver algo irreparável. Assim, com humildade e sem exagero, retomarei o livro para refazer o que está errado, e reimprimirei, com a cautela necessária, como sempre faço (justamente o que me salvou de uma perda maior, pois imprimi "só" 100 dele). Algo me dizia para tomar cuidado, mas eu não entendi que o cuidado era olhar novamente.

Às vezes, a intuição não funciona direito quando há interferências externas, ou ruídos na comunicação. O céu não fala bem com a Terra quando há muita gente falando e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Temos de nos acautelar diante do inexorável. Para que não se repita. Como diria o Dalai Lama, "poderia ter sido muito pior".

Rio de Janeiro, 22/08/2012 - 1h24

A poesia é a irmã pobre da música

A poesia é a irmã pobre da música. Enquanto a música anda de limosine, vestida de dourado, a poesia, que alimenta todas as artes, vaga ensimesmada e nua pelas praias do mundo, porque não tem mais nada a oferecer além dela mesma. Ninguém dá nada a ela nem aos poetas, só quando se tornam letristas e vendem sua poesia para outra arte, ou passam a escrever romances, aí sim, "livros de verdade", como já ouvi me dizerem.

Ser fiel à poesia é um ofício, uma missão, uma coisa de alma, que não se toma emprestado, nem se empresta a ninguém. Ou se tem ou não se tem. Como ela é mais díficil de se entender, mais difícil de se fazer, ou parece muito simples, é incompreendida, mas ela é a mais rápida ao transmitir ideias, é a mais concisa, a mais compacta, a mais sucinta.

Eu não preciso escrever um romance para dizer o que quero, pois um poema já diz tudo. Imagine levar tanto tempo escrevendo se um poema sintetiza todas as minhas ideias? Digo que há muito mais energia concentrada num poema do que num romance, pois o poema carrega muito mais energia em menos palavras, portanto, é mais potente. Um romance de 1.000 páginas não dirá o que digo em uma, pois levará muito mais tempo para se ler as mil páginas do que o meu poema.

O meu poema parece homeopático, mas ele é mais potente, muito mais concentrado, como todo remédio homeopático é, diluído à enésima potência, torna-se antimatéria. A função da antimatéria é extrair da matéria os seus excessos. Há um excesso de cálcio? Dê-se calcarium. Na homeopatia é tudo ao contrário. Nada se acrescenta, tira-se o que já se tem em demasia. A poesia (que rima com homeopatia) tira de nós o que temos em excesso: de tristeza, de melancolia, de apatia e nos deixa livres para ser quem somos, para amar, sentir, nos alegrar, pois nos mostra algum caminho de volta para nós mesmos.

19/08/2012

A primeira revisão é cega


Retomando um longo papo iniciado em 2009, depois que descobri que faltava quem falasse mais sobre edição de livros de dentro para fora, ou seja, como se publica o livro que se quer, comecei a escrever minha crônicas editoriais num blog e agora no Facebook, pois é preciso falar sobre isso: só se conhece sobre o que se fala e se ouve falar, ou se lê a respeito.

E minha mais recente descoberta é: "A primeira revisão é cega". Por mais que se leia atentamente, a primeira leitura pega só o que está "por cima", o entulho, os erros mais grosseiros, mais aparentes, mais indiscretos. Quando leio um texto pela segunda vez, fico sempre com a impressão de que não li nada antes. "Como foi que não vi isso?", eu sempre me pergunto. Pois é, essa é a má notícia: ninguém vê.

A boa notícia é que a segunda leitura vem nos salvar da primeira revisão que só prestou para nos informar sobre o assunto do livro. E até na segunda leitura passamos a entender melhor o que lemos antes, que não desceu da primeira vez. Esse é um dos mistérios do texto (ou da nossa incompreensão): ler só uma vez não basta. E ainda, a revisão é vertical. É preciso tirar todos os escombros de cima, para entrar no texto como numa escavação arqueológica.

O revisor (esse amigo que se transforma por vezes em inimigo) tem a missão mais árdua e mais inglória de todas: descobrir onde estão os erros e buscar a melhor solução. Às vezes, o autor não quer mudar nada, e fica lutando com o texto. Mas só uma leitura lenta e prolongada poderá mostrar os verdadeiros erros, não os aparentes.

A primeira revisão é cega, pode escrever isso no seu caderninho. Não vemos onde faltam vírgulas, não vemos as palavras que precisam ser trocadas, não enxergamos patavina. Eu já me peguei tantas vezes nessa situação, que tive de chegar a esta conclusão por força das circunstâncias. Ninguém enxerga todos os erros de prima. E só enxerga os óbvios. Os errinhos cruciais, aqueles mais ocultos, as construções de frase, os tempos de verbo só aparecem depois.

Revisei há pouco o longo texto de um livro sobre economia: assunto bárbaro, mas a primeira leitura só arranhou a superfície. Somente na segunda leitura é que "enxerguei" onde o autor havia se esquecido de alguns termos e algumas estruturas mais bem elaboradas. Como pode? Ele escreve bem, mas não tão corretamente assim? Tem vocabulário, tem raciocínio, faz grandes associações e explana bem seu ponto de vista, mas na hora de escrever, sempre algo fica de fora.

É como se "afinássemos" o texto, e tivéssemos de subir uma oitava acima, mudar o tom, fazer outro arranjo de palavras para dizer a mesma coisa. Linguagem é música. Precisa descer redondo. Um tempo de verbo ou uma palavra mal colocada desafina o sentido. Ahn? E quando o texto está bem escrito, os olhos e ouvidos agradecem.

A primeira revisão é cega, porque não lemos direito. Nossa mente ainda está aprendendo o texto, e não temos os sentidos totalmente apurados e despertos para o que está escrito. Temos de despertar antes de ler novamente. A primeira leitura é esse despertar. Algo nos surpreende, algo nos pega desprevenidos. E só na segunda, terceira, quarta, quinta leitura saberemos aprofundar nossa observação, nossos olhos e ouvidos, sim, porque também se ouve quando se lê, mesmo em silêncio.

Ler apura todos os sentidos. Descobrimos algo que estava ali escondido e que não percebemos antes. A revisão é uma faca de dois gumes. Ora lemos direito, ora não. Qualquer coisa que nos distraia, nos tira a concentração e pronto, não saberemos mais onde estávamos, perdemos o fio da meada.

Para ler, é preciso estar completamente absorto, deixar-se levar lentamente pelas palavras, para que elas nos inundem e subitamente nos sintamos submersos. Para revisar, é preciso estar duplamente atento, e ler tantas vezes quantas forem necessárias, até não encontrarmos mais nenhum erro - senão este passará à posteridade, e nada poderemos fazer depois.

21/08/2012 - 2h14