terça-feira, 21 de agosto de 2012

A primeira revisão é cega


Retomando um longo papo iniciado em 2009, depois que descobri que faltava quem falasse mais sobre edição de livros de dentro para fora, ou seja, como se publica o livro que se quer, comecei a escrever minha crônicas editoriais num blog e agora no Facebook, pois é preciso falar sobre isso: só se conhece sobre o que se fala e se ouve falar, ou se lê a respeito.

E minha mais recente descoberta é: "A primeira revisão é cega". Por mais que se leia atentamente, a primeira leitura pega só o que está "por cima", o entulho, os erros mais grosseiros, mais aparentes, mais indiscretos. Quando leio um texto pela segunda vez, fico sempre com a impressão de que não li nada antes. "Como foi que não vi isso?", eu sempre me pergunto. Pois é, essa é a má notícia: ninguém vê.

A boa notícia é que a segunda leitura vem nos salvar da primeira revisão que só prestou para nos informar sobre o assunto do livro. E até na segunda leitura passamos a entender melhor o que lemos antes, que não desceu da primeira vez. Esse é um dos mistérios do texto (ou da nossa incompreensão): ler só uma vez não basta. E ainda, a revisão é vertical. É preciso tirar todos os escombros de cima, para entrar no texto como numa escavação arqueológica.

O revisor (esse amigo que se transforma por vezes em inimigo) tem a missão mais árdua e mais inglória de todas: descobrir onde estão os erros e buscar a melhor solução. Às vezes, o autor não quer mudar nada, e fica lutando com o texto. Mas só uma leitura lenta e prolongada poderá mostrar os verdadeiros erros, não os aparentes.

A primeira revisão é cega, pode escrever isso no seu caderninho. Não vemos onde faltam vírgulas, não vemos as palavras que precisam ser trocadas, não enxergamos patavina. Eu já me peguei tantas vezes nessa situação, que tive de chegar a esta conclusão por força das circunstâncias. Ninguém enxerga todos os erros de prima. E só enxerga os óbvios. Os errinhos cruciais, aqueles mais ocultos, as construções de frase, os tempos de verbo só aparecem depois.

Revisei há pouco o longo texto de um livro sobre economia: assunto bárbaro, mas a primeira leitura só arranhou a superfície. Somente na segunda leitura é que "enxerguei" onde o autor havia se esquecido de alguns termos e algumas estruturas mais bem elaboradas. Como pode? Ele escreve bem, mas não tão corretamente assim? Tem vocabulário, tem raciocínio, faz grandes associações e explana bem seu ponto de vista, mas na hora de escrever, sempre algo fica de fora.

É como se "afinássemos" o texto, e tivéssemos de subir uma oitava acima, mudar o tom, fazer outro arranjo de palavras para dizer a mesma coisa. Linguagem é música. Precisa descer redondo. Um tempo de verbo ou uma palavra mal colocada desafina o sentido. Ahn? E quando o texto está bem escrito, os olhos e ouvidos agradecem.

A primeira revisão é cega, porque não lemos direito. Nossa mente ainda está aprendendo o texto, e não temos os sentidos totalmente apurados e despertos para o que está escrito. Temos de despertar antes de ler novamente. A primeira leitura é esse despertar. Algo nos surpreende, algo nos pega desprevenidos. E só na segunda, terceira, quarta, quinta leitura saberemos aprofundar nossa observação, nossos olhos e ouvidos, sim, porque também se ouve quando se lê, mesmo em silêncio.

Ler apura todos os sentidos. Descobrimos algo que estava ali escondido e que não percebemos antes. A revisão é uma faca de dois gumes. Ora lemos direito, ora não. Qualquer coisa que nos distraia, nos tira a concentração e pronto, não saberemos mais onde estávamos, perdemos o fio da meada.

Para ler, é preciso estar completamente absorto, deixar-se levar lentamente pelas palavras, para que elas nos inundem e subitamente nos sintamos submersos. Para revisar, é preciso estar duplamente atento, e ler tantas vezes quantas forem necessárias, até não encontrarmos mais nenhum erro - senão este passará à posteridade, e nada poderemos fazer depois.

21/08/2012 - 2h14

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