quinta-feira, 5 de março de 2015

O que os livros nos ensinam

Há autores com que me dou extremamente bem. Há outros, no entanto, que, não sei se por raiva ou inveja, inventam mil trapalhadas para tornar o relacionamento impossível. A relação autor-editor é muito complexa e complicada. Acho que pesa o fato de sabermos fazer algo que ele não faria sozinho, e isso causa alguma frustração. Se o autor não confiar 100% no editor, este não deverá fazer o livro do outro. Edição é uma questão de confiança. Ou se confia, ou não se confia. Confiar em parte não é confiar. Sempre procuro a melhor solução para um livro, como se fosse meu, e depois entrego-o pronto ao seu autor. Não preciso me apoderar de um livro que não é meu. Eu tenho meus próprios livros. E não precisaria editar mais ninguém. 
Nunca se sabe o que vai na cabeça de um autor durante toda a preparação de um livro, mas sei que ele passa por muitos medos e quase consigo adivinhá-los, ou antever um problema, e tento atalhá-los a tempo. Mas há problemas incontornáveis, quando não se tem respeito pelo trabalho do editor, ou este é depreciado por o autor considerar sua obra maior do que o trabalho do editor. Nenhum é maior do que o outro, eles são complementares, pois sem um, o outro não existiria. Sem o autor, o editor não teria o que fazer, e sem o editor, o autor não teria livro. A não ser que se torne seu próprio editor. O que é muito justo e válido. Mas atacar o editor por achar que este irá se locupletar do livro alheio é uma sandice. 
Não há ganho ao se fazer livros. Ao contrário, temos de investir um tempo insano para fazer algo que não nos pertence. E o único trunfo é ter feito. Principalmente pequenas tiragens de livros inéditos de novos autores. O que se ganha é ínfimo perto do préstimo que é elaborar o livro. O menor ganho que seja será para pagar custos, e não há nada que possa ser feito inteiramente de graça. Assim a satisfação de um editor está em ter realizado o trabalho, e ver o autor satisfeito. Isso não tem preço. Nenhum dinheiro paga essa realização. Mas ao autor ingrato, eu reservo o meu desprezo. Pois sua húbris é maior do que sua obra. E nada poderá fazê-o entender que ele não teria feito nada sozinho, a não ser que o fizesse. E não poderá tirar o meu mérito por tê-lo feito. 

Fazer livros é uma troca. De conteúdo pela forma. A ideia ganha corpo. Torna-se um objeto, ganha vida, materializa-se. Essa materialização tem um preço. Às vezes, é uma amizade. Outras vezes, é um contentamento.

5/03/2015 - 20h00

Foto de Pedro Drummond, Café Apetite.


Nenhum comentário:

Postar um comentário